“Toda mulher aprende, não muito depois de nascer, que para ser bonita tem que sofrer. Horas de cabeleireiro, depilação etc… E de certa forma isso fica embutido no nosso dna, acabamos relacionando diretamente uma coisa com a outra; beleza e sofrimento andam juntos.”

O Marco Rossini da equipe Pé de cobra me convidou para fazer a maratona de canoagem em Paulo Afonso com ele. Eu tendo que fazer treinos longos para o mundial, achei que essa prova seria uma ótima opção; eu tinha a boa companhia, o visual do lugar que diziam ser incrível e uma boa distancia a ser percorrida, seriam 55km.

Alugamos um carro em Aracaju e seguimos para a cidade destino, chegamos a tempo do briefing, nele ouvimos várias notícias animadoras;
-“O percurso foi muito bem sinalizado.”
-“Só terão dois trechos de duvida, neles vocês deverão pegar à direita, mas não se preocupem, além de muito bem marcado, teremos muitos barcos da organização”
-“Teremos um barco com água e red bull para os atletas”
-“Se as equipes se distanciarem muito teremos barcos acompanhando todos os blocos.”

Saímos do briefing bem seguros, pegamos metade do nosso kit com a organização (a outra metade, bonés e camisetas, só ia chegar no dia seguinte) Os light sticks do kit eram duas pulseirinhas fininhas que já estavam quebradas, dificilmente no dia seguinte a noite ainda estariam iluminadas.

Chegamos na PA4, em cima da hora; 9hs da manha, meio afobados porque até então não tínhamos certeza se pegaríamos a largada. Rapidamente descemos e nos juntamos às diversas categorias de barcos que aguardavam ansiosamente o hino nacional. –“Marcão, obrigada pelo convite, boa prova pra gente!” Quarenta minutos depois finalmente largamos.

Saímos na pegada, remando ritmado e forte. Já no começo, algumas canoas viraram, a prova só estava começando.
A primeira parte da prova para a gente foi uma boa disputa, ficamos colados numa dupla mista, depois outra colou na gente, a gente tentava manter o ritmo e o Marcão ditava a cadencia; “Um, dois, um, dois”. O visual de remar naquele canion distraía, o esforço era abafado pela beleza única do lugar. Depois de duas horas remando, começamos a papear, a conversa durou um bom tempo até que a lombar a dores começaram a se manifestar. Um vento ainda tímido soprava contra nosso barco.

Com 5hs de remo resolvemos fazer a primeira parada, encostamos numa casinha na margem para comer. O morador veio com a triste notícia; não estávamos nem na metade. “Mas vocês tem sorte, nem está ventando.” Pra que? A natureza usou sua fúria feminina para mudar de idéia, o perrengue estava só começando. Na segunda parte da prova, esquecemos a disputa, a gente queria mesmo era sobreviver. O desespero começou a bater, a gente olhava nossa evolução na margem e estávamos quase indo para trás, o ritmo caiu demais. “Lugar muito bonito e tal, mas eu não agüento mais remar, a paisagem não muda, minha lombar ta doendo, e o vento castigando” “Marcão, lembra que eu tinha te agradecido por ter me convidado?! Esquece!!”

No auge do sofrimento o Marcão fala “Luli, olha a lua!” e lá estava ela! bem no nosso azimute. Cheia. Ainda tímida porque o sol se punha exatamente nas nossas costas, num céu laranja rosado, e quanto mais escurecia mais brilhante a lua ficava, transformando o nosso azimute em uma trilha prateada.

Pela primeira e única vez o barco da organização passou pela gente, nós ainda preocupados pedimos um light stick e perguntamos qual era o caminho a ser seguido, pois já que estava escurecendo “É só ir em frente, não precisa de light stick” foi essa resposta que o vento nos trouxe, “Não precisa de light sitck? Em frente aonde?” ficamos nos perguntando, enquanto o barco sumia no horizonte.

Ficamos na margem da direita porque sabíamos que as duas viradas que deveríamos pegar ficavam à direita. Na primeira tinha um pessoal da organização que nos disse que ainda tinham 15km de prova. Segui navegando pela lua e pelas estrelas, e fomos nos escondendo do vento que soprava do sudeste, bem o sentido que a gente tinha que seguir. A gente via todas as equipes que a gente tinha passado com head lamps acessos na margem da esquerda, e cada minuto que passava a gente abria deles porque nós seguíamos mais protegidos do vento. Até que chegamos num abertão, víamos apenas os contornos dos morros e canions que nos cercavam, refletidos pela lua, um braço enorme à direita, e absolutamente nenhuma sinalização! Nós dois no limite da exaustão começamos a discutir que estratégia seguir. Aonde seria o seguir em frente?

Ficamos uma hora batendo a cabeça, batendo boca, apitando, apitando, apitando.
Os sons se perdiam. Nenhum barco. Nenhuma sinalização. Eu tenho feito muitas provas em que o caminho é marcado, e nelas além do trajeto ser impecavelmente sinalizado a organização fornece um mapa, caso aconteça algum imprevisto. E nessa, se light stick era artigo de luxo, imaginem então um mapa….

Decidimos ir até uma luz aonde fomos informados pelos locais que caminho devíamos seguir e depois de contornar essa ilha vimos todos os head lamps na nossa frente. Remamos aliviados para a chegada, deixando pra trás todo o sofrimento de 12.30hs de esforço. E tristes por saber que por falhas da organização remamos pouco mais de uma hora em vão.

Quando aportamos não recebemos nenhuma medalha, e ainda tivemos que esperar por mais 2hs a van da organização para nos levar de volta.
Mas para a gente que fica é essa imagem espetacular de um entardecer rosado, uma lua prateada, a água esverdeada emoldurada pelos canios do rio São Francisco.

Houve muitas desistências, bem menos do pessoal da aventura que também como as mulheres sabe que o sofrimento só realça a beleza.
Obrigada Marcão pelo convite, à Selva aventura por me deixar treinada e valente, e à Kailash pelo patrocínio e apoio.