“A verdade é que não faz diferença que roupa você está usando.” _ dizia um dos Marshalls da prova no café da manhã respondendo à várias perguntas dos aflitos novatos na prova.

E devia ser verdade; tinham Smurfs, homens de sunga, vestidos de viking, elefantes cor de rosa, de corpetes e pelados com apenas um kit sadomasoquista e gorro. Eu no meu modelito normal cor de rosa passava completamente desapercebida no meio da multidão.
A LARGADA
Dos altofalantes ouvia-se a voz do Mr Mouse cheia de chiados, num soar que lembrava a guerra mundial.
Com rosto marcado com meu numero de batalha, me dirigi para o pelotão dos convidados do rei. Por ser uma atleta internacional tive a oportunidade de largar na frente.
Lá encontrei com o José e juntos formávamos um país; os únicos brasileiros na prova. Ficamos criando expectativas do que estava por vir.
De longe avistava  Mr Mouse e seus discípulos numa movimentação só. Agora era esperar  diapararem o canhão.
O COMEÇO
O primeiro trecho era uma corrida longa em um terreno bem irregular. Depois algumas valas cheias de água intercaladas com enormes troncos obstruindo a passagem.
O primeiro contato com a água na prova já deixou meus pés automaticamente congelados. É difícil descrever a sensação, parece que todos os dedos caíram e ficam atrapalhando dentro do tenis. Eu tinha molhado apenas a canela.
O MEIO
Cheguei no “slalom” um trecho que te obriga à subir e descer uma colina dez ou mais vezes. Ótimo, corrida de aventura pura. Já estava começando a recuperaro meu calor corporal! Até chegar no obstáculo seguinte.
Entrar numa vala d água e tentar sair por mais inúmeras valas.
Ainda estava me divertindo!
às vezes ajudava, e muitas outras era ajudada a escalar patinando no barro para sair de dentro da vala.
O barulho ao atravessar a água parecia de pisadas sobre telhas quebradas… a água misturava-se com muitas placas grossas de gelo quebradas. Em diversas vezes as caneladas nessas placas gélidas doiam.
THE KILLING FIELDS
A parte temida da prova. Aonde estão concentrados os piores obstáculos diabolicamente desenvolvidos por Mr Mouse e seu exército.
O PIOR OBSTÁCULO
Para mim foi o que tinha que passar totalmente submersa em água. A partir daí a diversão deu lugar ao sofrimento.
Nadando quando não encostava mais meu pé no chão já comecei a ter um ataque, que não me lembro de ter tido nunca em nenhuma competição.
Ao chegar ao local aonde teri que submergir, me bateu um panico que assustou os staffs da prova, que me perguntaram se eu queria desistir. Eu estrebuchando cheguei a cogitar, com a barriga apoiada na plataforma, chorando de frio e de desepero, fiquei por alguns segundos sem saber o que fazer. Até que um staff veio me tirar da água. Imediatamente falei:
“Ok I´ll do it!”
“You ll have to do it NOW.”
Quatro afundadas para passar sob troncos e pronto era sair nadando do lago.
Traumatizante.
A ÁGUA
Está na mais baixa temperatura antes de virar gelo. É completamente diferente a sensação térmica de temperatura quando você está submerso.
Zero grau dentro da água para mim foi a morte! E foram muitos obstáculos que envolviam água.
CHOQUES E TORTURAS
Tinha um obstáculos que era “the torture chamber”. Rastejando no escuro, tentava desviar das pauladas de troncos pendurados por correntese das fitas de choque, para piorar o contexto, ia ouvindo os gritos dos marmanjos eletrocultados pelo caminho.
Tomei apenas um choque. A saída disso era um duto estreito e totalmente escuro. Meu tamanho me ajudou batante na maioria do percurso, ser baixinha nessas horas tem suas vantagens.
TORRES E CORDAS
Serviam de alívio para mim porque me faziam esquecer que eu estava hipotérmica. Exigiam concentração e equilíbrio.
Minha mente e meu corpo estavam anestesiados, meu maxilar doía porque passei toda a prova com os dentes travados tamanho frio.
O FINAL
Com 2.05hs terminei a prova. Chorando e tremendo tanto, que o chocolate quente que me deram não ficou no copo nem uma gota, foi todo involuntariamente jogado para fora.
TOUGH GUY
A prova não poderia ter outro nome. Uma ccorrida de aventura longa concetrada em duas horas. Você vive os extremos; da euforia ao desepero em segundos.
É louco sair de uma competição dessas e olhar para trás. Ver que a ansiedade, curiosidade, estratégias e treinos ficaram submersos nas águas congelantes da Inglaterra, e a partir daquele momento o que vale é a sobrevivência.
As medalhas deveriam ser entregues na largada!
Se querem saber minha opnião o marshall não tinha razão: a roupa faz a diferença sim! Todos deveriam largar de cleópatras, vikings, pelados ou de smurfs. Esse é o espírito que temos que ter para encarar os desafios na vida; sorrindo e se divertindo!
Obrigada à todos pelo carinho e torcida!
Que venha a próxima!