Raquel acabou de aterrisar em solo brasileiro. Ela está de volta da África do Sul, aonde enfrentou uma das maiores provas de mountain bike do mundo: o Cape Epic. Junto com o seu parceiro Hélder formaram uma dupla luso brasileira especialmente para a competição.
Pedi a ela que escrevesse um relato. Confesso que quando li me debulhei em lágrimas.
Raquel, parabéns pelo seu espírito e astral. O Brasil não podia ser mais bem representado
Esse é o Cape Epic de Raquel:

Cape Epic.
Um sonho. Um desafio.

Saí do Brasil com a certeza de que faria uma ótima corrida e me divertiria como nunca.
Participar da Cape Epic era um sonho que até pouco tempo atrás eu considerava impossível. Minha alegria e entusiasmo diante da realização deste sonho eram enormes.
Conhecer a África seria emocionante. Um continente exótico, curioso, diferente. Esperava emoção. Mas não imaginava que seria tão intenso e marcante.

Já no aeroporto conheci o meu parceiro português, Helder. Tínhamos 3 dias para os preparativos e últimos acertos.
Foi perfeito. Nossos santos bateram bem. Um treininho para nos conhecermos melhor, muitas gargalhadas, tudo pronto.
As surpresas estavam apenas começando e a tempestade de emoções que se aventava eu desconhecia.

Começamos a prova em boa posição. Alguns dias melhores, outros piores.
Não sabia que meu parceiro era tão forte e não foi fácil tentar acompanhá-lo. Mas seu bom humor e companheirismo, compensaram qualquer esforço a mais, músculos fritos, pernas em frangalhos.

Tivemos largadas sensacionais, cansaços inexplicáveis, subidas cantarolantes, recuperações inesperadas.
Tivemos pneu furado, passadores encalocrados, risadas, palavras novas. Dias de muito calor, noites de muito frio. Chuva, comida indigesta, cheiro de macela no ar.

Tivemos bom humor, respeito, alegria, tolerância. Tivemos amigos.
A África revelou-se quente, forte, intensa. Tudo o que vivi lá foi exatamente assim: marcante. As emoções inéditas, as diferenças climáticas, a língua, o fracasso, a dor, o corpo modificado, o amor, a perda.

Cape Epic mostrou-me meus limites e ofereceu-me um sonho. A África marcou meu corpo e meu coração.
Foi meu primeiro tombo. Não me lembro como aconteceu. Lembro-me apenas da atenção e cuidado das pessoas que me rodeavam. Helder e Mario Roma foram maravilhosos. Só me deixaram quando eu já conseguia fazer piada.

Decepcionar meu parceiro, aprender a lidar com o fracasso, decepcionar a mim mesma, engolir a vaidade. A África me trouxe tudo numa sacudida só. Com toda sua força e poderosa energia.

Cape Epic foi meu Cabo da Boa Esperança. Aparentemente calmo, azul, lindo. Mas na intimidade, Cabo das Tormentas, cheio de mistérios, engolidor de navios. Provocador de mudanças. Forte. Intenso. Poderoso.

A África revelou-me a mim mesma. Modificou minha alma. Aproximou meus amigos.
A aventura que vivi é parte de mim agora. Estou mais rica. Com o corpo quebrado, marcado, feio, doloroso. Mas infinitamente mais forte.
Ainda volto lá. Para vencer o desafio interrompido.