Não foi por falta de aviso de João Marinho, sabia no que estava me metendo, eu e toda a Malta (como se diz por aqui). Foram incontáveis emails e notificações de que o desafio seria duro. Mas são aquelas coisas que e gente apenas imagina, tem uma leve idéia do que está por vir, e a realidade, dura, nos aguardava. Era apenas uma questão de horas.

O Mountain Quest foi um desafio criado por um atleta de ponta para qualquer um que aceitasse enfrentar seus próprios limites. Um percurso de 162 km, 5 mil metros de subidas acumuladas em 3 serras diferentes e para apimentar mais um pouquinho o frio rigoroso do inverno português.

Quando fui me envolvendo com os detalhes, e fui obtendo mais informações sobre a velocidade média que o João levava nas subidas, e o tempo que ele calculava que iria demorar, cheguei a conclusão que não cumpriria a totalidade do percurso em menos de 20 horas.

Daí em diante passei a encarar o Mountain Quest como uma prova de aventura e não mais um passeio de mountain bike. O acumulado massacrante de subidas concentrava se nos primeiros 60 quilômetros, foi aí que a brilhante idéia de largar antes das 6 da manhã (horário previsto de largada geral) foi amadurecendo. Bastou encontrar com o João Pedro para definirmos que sairíamos logo após os briefing de sexta feira à noite.

Reuniu se uma patota jeitosa; Pedro, Fernando, Miguel, Renato e eu. Tudo separado, até macarrão instantâneo eu tinha na minha mochila, faróis potentes para pedalar a noite gentilmente emprestados pelo Francelino, junto com esquentadores de mãos e de pés, meu casaco de esqui também ia.

Sem contar que seria a estréia da minha bike novinha, quer dizer a bike do João (rs ele ainda não me deu) a Pink Snow, como fora batizada porque é lindamente branquinha com toques de rosa. Uma Rocky Mountain personalizada.

Saímos os cinco muito carregados e cheios de vontade a 1h da manhã da praça principal do centro de Amarante. Escoltados por amigos, organizadores e simpatizantes da brincadeira.

Já começamos subindo. “Graças a Deus!” Só assim conseguiríamos driblar o frio. Saímos em ritmo de passeio e cada hora parava se para fazer alguma coisa; ou era a fonte, ou o celular, ou tirar o casaco.
“Hum assim iremos demorar 30 horas.”

Pedro Ribeiro começou a se sentir indisposto, não sabia se era algo que tinha comido ou bebido. Quando passamos na aldeia velha paramos abrigados ao lado de uma fonte para ver se ele melhorava. Era só parar que eu parecia uma batedeira! Não parava de tremer e bater os dentes, as mãos congelavam no mesmo instante. Que gelo!
“Pessoal melhor seguirmos senão iremos morrer todos congelados.”

Com três horas de pedal, as quatro horas da manhã no alto da primeira serra (Aboboreira) recebemos apoio caloroso da Anita e do Zé Silva que além de incentivos nos levaram chá quente e bolachas. Confesso que carregamos as baterias na hora, obrigada amigos!

Ali tivemos a primeira baixa no grupo, Pedro seguiu direto para Amarante, e nós começamos a descer sentido à segunda serra. Quando começamos a subir o João me liga, ele estava já a caminho da largada oficial.

Pouco antes do quilometro 30, nós já tínhamos subido 2.700 no combate noturno, ao cruzarmos a estrada paramos num ponto de ônibus para esperar nosso segundo apoio; Pedro que já havia até parado no hospital chegava ao nosso encontro com mais uma dose de chá, bolachas e incentivos.

O amanhacer é poético na serra do Marão. Não menos prezando a noite estrelada na serra da Aboboreira com vista linda cheia de luzes laranja da cidade que lá embaixo ficava. O percurso todo era de se encher as vistas. A beleza inóspita das serras, o silêncio profundo que por vezes é cortado pelo sopro das eólicas.

Com muita luta e discussão, vencemos a tentação de entrar no carro quente do Pedro e resolvemos seguir, continuar na batalha, mesmo sabendo que os 162 km já estavam fora do alcance e cogitação.

Passada a aldeia de Mafómedes começamos mais uma vez a subir, aí por volta do quilometro 36 eu já não conseguia mais manter um ritmo bom, me doíam as pernas e eu estava atrasando ainda mais o ritmo do grupo.
“Pessoal, eu não terei condições de seguir, se quiserem sigam eu vou pegar o atalho.”
“Equipe é equipe, iremos todos juntos.” completou o Nando.

João Marinho pensando nos mortais que ali estariam criou dois cortes para que os que não tivessem condições de prosseguir pudessem voltar. Nós sabíamos que o primeiro atalho estava perto, mas ainda assim nos poupamos de uma descida e subida para chegar até ele.

Viramos sentido as antenas do Marão, seria o último grande cume, depois disso era descer quase 30 km rumo à Amarante.
“Aonde estas?”_ João ao telefone.
“Desisti, vou voltar para casa.”
“Me espera que estou chegando em vocês, assim você leva a chave de casa.”

Isso que é perfect timing. Em três horas, o que nos tinha levado mais de seis, os primeiros guerreiros do Mountain Quest nos alcançavam. Rui Guimarães foi o primeiro a passar. Aproveitando as pedras da serra, fizemos a nossa torcida organizada, e escrevemos no chão RUI e também JOÃO.

Para encontrar com o João desci até o ponto de virada do percurso, e nós três (Miguel e nando) ficamos lá por uma hora, esperando alguns de nossos amigos por lá passarem, foi assim que perdemos o segundo elemento da equipe Renato que seguiu até as antenas do Marão e nos não o encontramos mais.

Voltar para Amarante não teve muito segredo, o difícil foi ficar acordada depois de uma noite sem dormir na descida que não terminava mais.

Com 11 horas em cima da bike, muito mais de 3.000 de acumulado em subidas e 85 km termina nossa aventura em Amarante.

O Mountain Quest, uma “brincadeira” que saiu de um flash de idéia do João, se tornou real! A realidade mesmo que muito dura, mesmo com menos de 10 atletas que conseguiram percorrer sua totalidade brutal, agradou a todos. Todos que participaram saíram de Amarante cansados, mas com um sorriso no rosto e muitas histórias para contar, e provavelmente em 120 versões bem diferentes! Essa foi a minha!

Obrigada aos meus companheiros de equipe, Miguel, João Pedro, Nando e Renato, sem vocês o desafio não teria o mesmo sabor. Obrigada Anita, Zé e João Pedro pelo chá e amizade.

Last but not least João Marinho; obrigada por reunir tantos malucos dividindo esse cenário lindo conosco. Por proporcionar a mistura mais incrível que há: Bike e amigos.
E principalmente por deixar a maluca da sua namorada sair para pedalar à uma da manhã!

Life is good!