Confesso que não fiz a lição de casa. No meio de uma turma grande de entusiastas pouco me preocupei em saber os detalhes da aventura, Diogo já tinha acertado o plano da expedição.
Só depois fui saber mais sobre a travessia; A Serra Fina fica na divisa de 3 estados: São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Leva esse nome porque é possivel seguir pela crista estreita de sua cordilheira e apreciar a incrível ampla vista. Nela o Pico da Mina, o quarto maior do Brasil com 2718 m de altitude. Normalmente essa travessia é feita em três dias (detalhe que eu não sabia disso até colocar o meu tênis) nós saíamos para uma jornada longa que pelos cálculos do lider da expedição demoraríamos em torno de 14 hs.

Acordar bem antes das quatro da manhã não foi uma tarefa fácil tendo ido dormir a meia noite. Grupo formado: Bia, Bruno, Bianca, Carcaça, Dri, Diogo, Lilian, Marcão, Sidney e eu.

Saída para a famosa travessia a entrada da trilha “Boca do Lobo” fica bem perto da pousada onde estávamos hospedados. Quatro e meia da manhã sob o céu estrelado seguimos rumo ao primeiro morro o Capim Amarelo.

O horário de sono não intimidou a turma animada que seguia deslumbrada com a aventura. Nas paradas para juntar o grupo apagávamos o head lamp e fazíamos silêncio. Pouco antes do amanhecer aproveitando os sinais de claridade desliguei as luzes e acelerei o ritmo para conversar com a montanha. 

Aprendi que a natureza funciona assim; seja no mar, ar ou terra é preciso pedir licença para entrar. Fiquei a sós. Aproveitei o momento não só para pedir permisão mas para me sentir parte daquele paraíso que estávamos entrando.

O amanhecer estava especialmente mágico, já com bastante altitude era posível ver a cordilheira e uma névoa branca que cobria os vales bem abaixo de nós. Atingimos o primeiro cume com 3 horas de caminhada, lá encontramos com o dono da pousada que pernoitava em barracas com mais dois aventureiros. A Bianca decidiu que retornaria com eles para baixo,  nosso grupo agora tinha nove pessoas. 

Maurício apontou o famoso Pico da Mina que parecia estar  tão perto, talvez em distancia até estivesse. 
Seguimos pela crista das montanhas num sobe e desce até o Pico da Mina. Estávamos com apenas 10 k e 6 horas de trekking, era possível ter uma boa amostra do que vinha pela frente.

No cume mais pessoas acampando (essa seria a segunda parada para aqueles que fazem a travessia em 3 dias) Uma parada para escrever no livro de assinaturas e siga! Depois do Pico da mina a descida é para o famoso Vale do Ruah, aonde está um dos dois únicos pontos de água que a travessia toda possui. Ali  fomos apresentados ao nosso pesadelo; o tal capim (ainda não descobri se é capim elefante ou de anta, mas enfim o nome não importa) assassino!

O visual para quem assistiu lembrava o filme Gladiador; uma área que parecia não ter fim coberta pela vegetação que escondia a trilha, o que e quem estivesse na frente. O primeiro contato com o capim foi divertido, era novidade e mesmo com mais e dez horas de trekking os tombos (porque pisávamos nas touceiras sem ver) ainda eram engraçados.
Eu fiquei entre a cruz e a espada; não aguentava mais meus braços castigados pelo incessante passar das lâminas finas do capim e sofria com um princípio de desidratação, não queria arriscar mais e colocar os manguitos. 
No final da travessia não eram apenas os braços que incomodavam, eu já não aguentava nem ouvir o barulho do contato do meu corpo tentando passar pelas trilhas cobertas. Não pensem que a tortura parou por ai, a Serra Fina possui um bambuzinho que também castiga seus desbravadores.
Chegamos ao Pico dos 3 estados, aonde a divisa se encontra. Lá foi possível passar um rádio para o dono da pousada para que ele providenciasse nosso resgate. Com um cálculo de tempo bem otimista disse que em 1.30h estaríamos diante de cervejas geladas.
Sem considerar que poderíamos nos perder, que foi o que aconteceu. Já estava escurecendo  o que tornava a navegação difícil, Diogo seguia com o gps e o Marcão com o mapa. Eu já não tinha mais energias para nada, quando a trilha não aparecia aproveitava para sentar no chão e tentar me recuperar um pouco.

Fazia tempo que não passava por perrengues como esse: “Meninos sabem aquela vontade que eu estava de fazer um Ecomotion? Acabou de passar!” Aquele nobre e famoso momento do “que raios eu estou fazendo aqui?” mais uma vez tomou conta de toda célula do meu corpo.

Enquanto isso a Bia alucinava ao meu lado: “Um carro! Estamos salvas!” era um arbusto de hortências. A situação estava ficando grave, e pelo visto não era só para mim.

Headlamps acesos passamos por um hotel abandonado, tudo meio fantasmagórico quando depois de “bater a cabeça” para achar a trilha, alguém descobre um caminho para seguir. Quinze minutos andando e acreditem; batemos exatamente no mesmo local. Sinistro!
Finalmente achamos a trilha que nos levaria até a estrada onde a van estaria nos esperando, agora com cervejas quentes?

Foi um trekking de gente grande num grupo bem homogênio; uns recém chegados de Ecomotion, outros se preparando para provas duras como o Mont Blanc. O ritmo de todos se manteve bom até o final, o meu ritmo nas últimas horas foi o mais fraco da turma.

“Meu Deus! 27 k em 17 horas! Foi o trekking mais duro que já fiz na vida.” provavelmente os nove pensavam na mesma coisa enquanto felizes entravam na van. 

Obrigada à todos vocês pelas 10 primeiras horas de trekking, semana que vem (seguindo a lógica da cabeça de corredor de aventura) prometo agradecer pelas horas restantes, quando o capim e o sofrimento extra tiverem dado lugar as lindas vistas e intermináveis risadas compartilhadas. Valeu!