EQUIPE SUUNTO 1 FLOWER PEOPLE NA TRANSALPINE RUN 2012
Ter um patrocinador em comum com a Transalpine foi algo que selou a escolha do desafio do ano; a Transalpine Run, uma prova em 8 estágios de corrida de montanha com 15 mil metros de ascensão acumulada atravessando os Alpes, passando por três países Alemanha, Austria e Itália.
A Transalpine run é uma competição internacional muito popular e seis meses antes da prova as vagas já estavam esgotadas.Tivemos todo o apoio da SUUNTO para que nosso desejo se tornasse realidade com sua ajuda foi possível garantir uma vaga para a única equipe brasileira da prova.
O PERCURSO

Largando de Ruhpolding na Alemanha, passando pela Austria e terminando em Sexten na Itáila o percurso de 320 km foi o mais exigente e longo de todas as edições anteriores.
Trezentos e vinte quilometros em oito dias, uma média de 40 k e um acumulado de ascensão de quase 2 mil metros. No final da prova teríamos “escalado” quase dois Everest.
A DUPLA FLOWER PEOPLE

A Dri e eu, temos um currículo recheado de competições em estágio de mountain bike e tínhamos apenas o “Cruce de los Andes” de amostra  do que podería ser a Transalpine.
Essa seria a sétima prova em estágio que competiríamos juntas, é incrível a sinergia que temos. 
Somos muito parecidas e mesmo tendo treinadores e treinamentos diferentes, mesmo morando em cidades diferentes e não treinando juntas os nossos ritmos se alinham, a partir do segundo dia o que uma pensa a outra fala e vice e versa. Fórmula extremamente necessária para o sucesso; a dupla precisa ter o mesmo objetivo e acima de tudo saber respeitar se. 
A “ENCRENCA”

Mesmo olhando as altimetrias e estudando um pouco do que nos aguardava nós só percebemos onde estávamos nos metendo após o primeiro dia de competição.
O primeira etapa começou com 50 k, a mais longa de todos os dias. Largamos muito ansiosas e aflitas com a temperatura. O dia estava frio, a Dri e eu somos bem calorentas e vendo muitos atletas altamente equipados ficamos com medo. Parecíamos amadora, antes da largada esquecemos tudo o que já sabíamos sobre nós mesmas.
A largada foi um alívio, agora era colocar tudo o que tínhamos treinado em prática.
Não tem um dia fácil de prova. Todas etapas foram tecnicas, com corridas em trilhas, com pedras, raízes, algumas com trechos guiados por corda e muita subida. 
Após as 8:40 hs que levamos para finalizar o primeiro dia, percebemos que o desafio seria mais exigente do que imaginávamos. Nossos dias ficaram curtos; resumiam se em deixar a mala na recepção do hotel, largar, correr em média oito horas por dia (nosso tempo total de prova foi 66 horas), cruzar o pórtico, descobrir onde era o nosso hotel, tentar dar notícias de vida, ir na festa de premiação, comer e descansar para começar tudo novamente no dia seguinte. 
A partir do terceiro dia eu brincava que a prova parecia uma mesa de bar; o mais resistente ficava em pé, depois do quinto dia a gente já a comparava com um campo de batalha; atletas mancando para todos os lados. A fila da fisioterapia na largada era algo interminável; nem imagino quantos metros de knesio tape foram usados. 
No sexto dia 40% das equipes já estavam fora da prova. Das 300 equipes que largaram apenas 178 continuavam classificadas. No ultimo dia de prova das 23 equipes femininas, apenas 10 sobreviveram a Transalpine. A medida que os dias foram passando e nós resistindo, subíamos de posição assim ficamos com o oitavo lugar.
A nossa experiencia em competições de endurance nos deu vantagem; a estratégia desde o começo foi encarar cada dia com calma, tentar estabelecer um ritmo, fazer com que as paradas nos pontos de água fossem rápidas e eficientes para que não fossemos pegas pelos cortes (horário limite de passagem nos abastecimentos). Tiveram equipes que ficaram fora da prova porque passaram 3 minutos depois do horário limite. Nós passávamos normalmente com uma hora de antecedencia antes dos cortes, nos dias mais curtos essa folga diminuia. Portanto o segredo seria gerenciar nosso tempo e tentar minimizar a chance de sofrer lesões, já que a cabeça e o corpo estavam treinados.
Levávamos vantagem em relação ao grupo nas partes tecnicas; em terrenos com pedras grandes e piso irregular. Nos primeiros dias de prova também ultrapassávamos muitas pessoas na subida, mas esses super poderes se esgotaram a medida que os dias foram passando. 
Meus joelhos foram ficando muito prejudicados com o acumulado de descidas quem inventou o ditado “Para descer todo Santo ajuda, certamente não tinha joelhos.” A Dri teve problema em um de seus tornozelos e com duas de suas unhas, mas a ordem era essa: “Não vale a pena reclamar! O sofrimento é passageiro.” Já sabíamos que iríamos ter que conviver com a dor então fazíamos com que as nossas risadas a abafassem. 
Houve dias em que não tínhamos nem tempo de ir tomar banho e tínhamos que ir direto para o jantar. Houve dias em que não conseguíamos ficar em pé após a etapa. Uma montanha russa de emoções; momentos de muita alegria ao cruzar os pórticos de chegada seguidos de insegurança e medo: “Como iremos ter forças conseguir correr amanhã?”
De uma maneira mágica e inexplicável o corpo melhorava e no dia seguinte conseguíamos sair correndo. Nossa força de vontade nos leva adiante, estou convencida que não foi com os pés que vencemos 320 k, mas com a cabeça. Queríamos com cada célula dos nossos corpos completar o desafio. 
O apoio que tivémos de todos os amigos e família foi fundamental. Todos os dias de manhã escrevíamos em nossos corpos os nomes de todas as pessoas que nos incentivaram e mandaram comentários para o blog. Era como se estivéssemos correndo com todos os nossos amigos durante a prova.
O astral brasileiro encanta a Europa. O coração aparentemente frio dos alemães acabou amolecendo após alguns dias de prova; com palhaçadas, uniforme PINK, capas de super heroínas, alto astral e a nossa dancinha (ridícula) na chegada conseguimos arrancar finalmente sorriso de todos. Um dia fomos eleitas as heroínas da trilha (todo dia alguém era escolhido) porque como nos disseram: nos momentos difíceis continuávamos sorrindo, e mesmo com o dobro (ou mais) de tempo de prova dos líderes sempre cruzávamos a meta com alegria contagiante! 
Dura e exigente, a Transalpine run foi uma experiencia das mais intensas e belas que tive na vida. O presente é muito real, e o sofrimento potencializa a vivência. Talvez cruzando as montanhas eu tenha tido esse in sight “É isso: O sofrimento aguça os nossos sentidos, nos torna mais emotivos, com a emoção a flor da pele as cores ficam mais vivas, a beleza mais definida e a experiencia mais marcada.”
Correndo podemos chegar onde nem a bicicleta nos leva; a lugares inóspitos, cercados pela natureza e montanhas gigantes que nos tornam pequenos. E pequenas mas de alma cheia derrubamos lágrimas pelos lugares lindos que passamos, emocionadas e tocadas pela natureza não foi difícil agradecer o privilégio de estarmos vivas e lá no alto dos Alpes estávamos sussurrando isso no ouvido de Deus! LIFE IS GOOD!
Obrigada Dri, minha eterna irmã e alma gemea espero viver outras experiencias tão incríveis como essa junto com você! Obrigada Jony, que no auge da organização da DBR arrumava tempo para preocupar se comigo. Mais uma vez obrigada a todos os nossos amigos e família pelo carinho apoio e incentivo. E aos nossos patrocinadores SUUNTO, SIGVARIS SPORTS, NEW BALANCE, COFIDES, FLOR E TRAPO e NEAF.