fotos Christian Correa

Quando o Caco me convidou para fazer parte da equipe Selva na primeira prova de aventura do ano eu já sabia que teria que ser arrastada pelos meninos. A condição teria que ser essa.

Meu ano de treinos está apenas começando, me preocupava entrar numa Cháuas, uma prova de aventura marcada por sua dureza, sem estar preparada. Mas de certa maneira mesmo sem muito treino competir com a Selva sempre me deu segurança porque de uma maneira ou de outra sabia que teria ajuda da equipe para seguirmos fortes.

A formação da equipe seria uma novidade para mim, eu já havia corrido com o Carcaça, mas o Marcelinho e o Rafa Melges seria a primeira vez.

Na véspera de prova que fiquei sabendo onde realmente estávamos nos metendo; 29 k de trekking, 28 de bike e 10 de canoa canadense:
“Vinte e nove quilômetros de trekking?”
De certa forma as distâncias da prova me favoreciam, mas 29 k de trekking na Cháuas não poderiam ser boa coisa.

Alinhados para largar estudando o melhor ponto para atravessar Rio. Adrenalina a mil, eu já estava clipada no Marcelinho, pronta para ser rebocada no primeiro sprint de corrida.
A largada na praia começava com uma travessia. A estratégia dos meninos era correr mais na areia para tentar cruzar o rio mais adiante, muitas equipes entraram no rio direto e tiveram mais dificuldade de sair dele.

Saímos da água pilhados e entramos na trilha: “Cade o PC1?” A certeza dos meninos era tanta quanto a navegação que não nos preocupamos que não tinha ninguém da organização por ali e passamos batido na liderança para o PC2.

Rapidamente fizemos a transição e estávamos pedalando na praia. Outra estratégia que achamos melhor adotar: pedalar na praia, em alguns trechos sabíamos que seria possível pedalar dentro do condomínio da Riviera, mas optamos em seguir pela praia porque não teríamos possibilidades em errar na navegação.

O Rafa e o Marcelinho dividiam a navegação, eu já tinha semi memorizado o mapa na noite anterior e me preocupava ficar antenada para onde íamos. Sempre rebocada. Na bike os meninos criaram um reboque prático que dava para trocar quem me puxava. Os três fizeram força nesse primeiro trecho de bike. Depois de percorrer duas praias e o condomínio da Riviera chegamos ao PC6 para mais uma transição.

A estratégia dessa primeira parte da prova era realmente sprintar e tentar abrir a liderança para que pudéssemos chegar ao PC7 com certa vantagem para encarar o trekking que exigiria mais navegação e provavelmente definiria a prova. A corrida até o PC7 foi rápida e certeira, agora tinha chegado a hora da verdade, hora de ir buscar o PC8, hora da Cháuas, hora do perrengue.

Entramos na trilha já buscando o melhor ponto para encarar o primeiro vara mato, que se feito no local certo e com o azimute certo bateríamos na trilha seguinte. O Rafa acertou a navegação em cima e depois de um vara mato (ainda light) achamos a outra trilha que seguia.

Tinha chovido muito no dia anterior a trilha muitas vezes sumia, como nós liderávamos a prova não existiam pegadas para seguirmos. Claro que tinham trechos que a trilha não existia mesmo. Quer moleza?

Quando estávamos nos aproximando da virada de direção saímos da trilha de de repente estávamos com água na cintura, afundando na lama e nos digladiando com bromélias que retalhavam nossas pernas à medida que tentávamos avançar. Eu estava de bermuda e meias de compressão, larguei assim porque não imaginava que pudesse acabar com as minhas coxas, mas a guerra era tanta que nem os braços sairam ilesos.

Nem sei dizer quanto tempo ficamos nesse trecho, para mim foi uma eternidade! O Marcelinho subiu em uma árvore para visualizar qual seria a melhor estratégia para literalmente tirar os pés da lama, assim rumamos sentido inverso que tínhamos que seguir para ao menos escaparmos das bromélias assassinas.

Quando achamos a trilha que seguía para o PC8 finalmente, a mesma que nos tiraria dali, me clipei no Carcaça e segui rebocada acompanhando o trote da equipe. No rio para mais uma travessia escutamos o staff dizendo que éramos a primeira equipe a passar ali. Quase chorei! Nosso esforço todo tinha sido compensado.

Seguimos trotando de volta até a transição na praia onde nossas bikes nos esperavam para mais um trecho de pedal. Na transição, já com pouca comida e menos água resolvemos perder um pouco mais de tempo para resgatar as energias. Os donos de uma casa vizinha ao local gentilmente nos cederam água, gelo, banana e um saco de biscoito de polvilho.
“Pratico triathlon, não essas maluquices de vocês, mas consigo entender o que estão passando!”
Reabastecidos para mais um pedal até o final da praia.

Segunda parte da batalha; o ultimo trecho de trekking, que deveria ser uma costeira mas fora cancelada por questões de segurança, assim o trecho transformou se numa corrida no asfalto quente em busca de uma passarela que demorou a eternidade para chegar. O Carcaça me rebocava e seguíamos os quatro trotando pelo acostamento.

Momento duríssimo da prova, a equipe inteira estava sofrendo, o pensamento dos quatro era o mesmo: “Se alguém parar de correr, eu paro.” Infelizmente ou não ninguém deu o braço a torcer.
Quando chegamos na passarela PC11 eu estava quase chorando. Talvez o staff que lá estava tenha sentido o quanto precisávamos de um estímulo e deu R$ 10 para que pudéssemos comprar uma Coca-cola: “SANTA Coca-cola, deusa dos desesperados e quebrados!”

“Calma Luli, é o ultimo trekking! Faz uma forcinha! Aí acabou a prova; será só a canoagem e a bike, não vai ter que andar mais.”
“Gente, vamos trotar só até aquele carro preto ali.”
“Tá ruim andando e continuará ruim trotando, mas pelo menos passará mais rápido!”

O Rafa assumiu um papel nesse trecho final que levou a equipe adiante e me impediu de ter um ataque de nervos, deitar no meio da rua, espernear e talvez nunca mais andar. Eu não fiz nada disso, me comportei dentro do possível e segui, ainda rebocada pelo Carcaça até finalmente a tão esperada canoa canadense.

Num rio sinuoso e margeado pela vegetação densa caraterística da região minha alma se acalmou. O final de tarde refletido na água anunciava o final do sofrimento. O Rafa tinha razão.

Após pouco mais de uma hora de remo na canoa canadense (Eba! mais um esporte para a lista) saímos da água, já completamente no escuro, prontos e totalmente renovados para o ultimo trecho de bicicleta.

O pedal final foi na praia, curtindo a primeira colocação geral que ninguém nos tirava mais. Com oito horas de prova (foi tudo isso mesmo?) cruzamos o pórtico de chegada.

Obrigada equipe Selva; Carcaça, Marcelinho e Rafael, foi “da hora” competir com vocês.
Que venham muitas outras, prometo que estarei mais treinada!

Marco Fábio, muito obrigada por acolher toda equipe em sua casa! Foi essencial uma boa noite dormida para largar descansados, e nem se fale depois para recuperar melhor ainda! Many thanks!

Agradeço também meus Patrocinadores Hope, Neaf Pilates, New Balance, Suunto
e meu irmão Tom Cox que cuida das sobrinhas de duas rodas tão bem!
Valeu!