Voltar a correr uma maratona não era algo que estava nos meus planos. Correr no asfalto nunca está! Depois de Roterdã em 2012 (a segunda e a ultima!) eu jurei que não faria mais isso, mas como todos os caminhos levam a Roma e memória de corredor é curta acabei caindo no conto do vigário Francisco.

Inserida no meu calendário em dezembro, eu teria 3 meses de treino. Com experiência de alguns anos de competição achei que não seria impossível fazer minha própria planilha de treino, e depois de muita pesquisa mixada com meu histórico de treinos cheguei a um veredito. Fazer a planilha não foi difícil, difícil foi segui la. 
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“Em Roma, se romano.” como diz o ditado.
Vestida a caráter, me senti a própria, caminhando em direção ao Coliseu sob chuvisco fino e gelado na manhã de domingo.
No meio da multidão, no berço de civilizações, ouvia o discurso de largada “Roma está aos seus pés!” e a musica clássica do filme Gladiador começa a tocar. (Oportuno não?)
Essa mistura explosiva de hormônios, adrenalina, musica e energia de multidão transformou se em joie de vivre que contagiou todo meu corpo! Foi dada a largada.
O percurso tinha sido muito bem estudado na noite anterior, assim como a estratégia. Eu tentaria não largar muito acelerada, e dessa vez por incrível que pareça (talvez não tão incrível assim) eu consegui; correr com uma espada em uma mão e um escudo nada aerodinâmico na outra automaticamente me colocou num pace mais confortável.
No centro de Roma várias ruas são de paralelepípedo que estavam molhados, por sorte estava com o NB com sola antiderrapante e saber disso no começo de prova foi uma boa vantagem. 
Muitos corredores que passavam por mim divertiam se com a minha fantasia. Na Disney é muito normal as pessoas se fantasiarem, aqui não vi ninguém. Uns aplaudiam, outros perguntavam se meu escudo e espada eram pesados, e muitos riam. O mesmo acontecia com os espectadores, minha passagem arrancava uma ola de gritos e incentivos. Eu resolvi correr sem música e assim seguia transformando a torcida em energia para as pernas.
O plano da véspera seria tentar chegar até o quilometro 18 de escudo na mão. Porque o 18? Poque lá estaria o vigário que me trouxe até aqui. Mas quando cheguei ao Vaticano já tinha encorporado o método de correr com as mãos ocupadas (escola de corrida de aventura talvez; carregar remo, duck na cabeça) e o fato de fazer as pessoas rirem me trazia mais energia para seguir assim.
Definitivamente não nasci para correr maratonas, vou muito bem até a metade; virei os 21 em 1.50 h e se tudo continuasse ritmado em 3.40 eu acabaria a prova, mas o homem da marreta sempre me encontra no final. Sabia que o desgraçado me esperava atrás de alguma fonte romana.
Depois do quilometro 28 descobri a fórmula para as pessoas não quebrarem em maratona: 
1 – Da metade da prova em diante a contagem de quilometro deveria ser regressiva.
2 – Cade a Coca-Cola nos pontos de hidratação? Sério! Será possível? nas provas de endurance de mountain bike, corrida de trilha, o que mais tem saída nos postos de abastecimento é Coca-Cola. Porque as outras tribos sabem disso e os maratonistas não? Alguém pode elucidar o caso?
Desculpem, a tpm e o cansaço de prova, voltemos ao quilometro 33.
Achava que o pace estava bom e que eu conseguiria correr abaixo das 4 horas. O final da maratona roda pelo centro histórico com muita platéia e tanta distração as dores foram esquecidas pelo momento. 
Nos quilômetros finais eu já estava amaldiçoando os tais paralelepípedos pela irregularidade, com o corpo cansado estava mais difícil corrigir as pisadas irregulares. Foram 40 km em 3.46 h e uma eternidade para cruzar até a linha de chegada que no meu Suunto marcava 42.900!
Após 4.01h a batalha chegava ao fim, em frente ao Coliseu, e a mágica de correr na cidade eterna agora estava concretizada em uma linda medalha dourada!
Eu juro que não vou correr mais maratona, nem que me ofereçam Coca-Cola!
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Obrigada New Balance, Suunto e Ready 4 pelos treinamentos que me fortaleceram.
Agradecimento especial dessa prova fica para a New Balance Itália que me recebeu como uma da família! 
A todos os amigos, seguidores e incentivadores: Riplas, Fabi e Inês que correram comigo, e Fátima você não chega atrasada nunca! Feliz Aniversário!
Amo vocês