As bikes não são tão normais na Itália como nos países vizinhos.Quando cheguei com uma capa de chuva rosa e capacete da mesma cor para embarcar no navio, o oficial deu tanta risada que nem fez questão que minha bike ou bagagens passassem pela inspeção.

Após parar a bicicleta na garagem do navio fui encaminhada para a cabine, eu queria logo deitar e dormir porque as 5.30 da manhã já estariam anunciando a chegada ao mais novo destino.

Quando desci no porto de Olbia o sol que nascia invadiu minha alma e sem planos ou rota segui onde minha intuição me mandava. O dia era outro; sol, muitas flores no acostamento da estrada, poucos carros, caminho sinuoso com subidas e vistas de tirar o folego.

Parei numa praia e sem pressa alguma resolvi esperar o sol que voltava a se esconder. A ideia era desfrutar o caminho e tentar ao longo dele descobrir onde ficar, parando nas praias me perdendo nos vilarejos. Em cima da bike aproveitando o visual e deixando os pensamentos fluírem o tempo passa.

“Nossa que fome!”

Quando não aguentava mais no meio de uma vilinha achei um supermercado, reelembrando os velhos tempos das viagens de bike; comprei meu almoço e sentei sem cerimonia tranquila numa calçada. Pausa para comer.

Um biker que saía do supermercado sorriu para mim quando descobriu que a dona da “bike de carga” era eu:
“De onde está vindo?”
“Sai ontem de Roma.”
“Com essa bike? “_ perguntou um tanto espantado quando descobriu que eu já tinha pedalado quase 140 km. “Ela é elétrica?”

 Seu espanto transformou-se em encantamento quando se identificou com a forma de viajar sem se importar com o percurso, com imprevistos ou planos, “ao sabor do vento” como diria minha avó.

Tentei descobrir algumas informações de onde seguir para ir rumo ao destino de Perpignan na França. Sobre os barcos que saem para França pouco descobri, mas agora sei que na outra ponta da ilha saem navios para a direção que quero ir.

Depois do almoço segui as placas rumo a Palau e antes disso passei por Arazchena. Já tinha quase 60 km pedalados e para um dia que havia madrugado as 5.30 da manhã estava na hora de encostrar a bike. A cidade no meio das montanhas parecia fantasma, não se via ninguém nas ruas e depois de tentativa sem sucesso de achar hotel resolvi seguir viagem. Ai vi uma placa de um B&B e resolvi seguir mesmo sabendo que era na direção contrária.

Comecei a subir um morro sem fim, a vista e um morro de pedras me atraia para continuar, de repente fiz meia volta: “Não vai ter hotel nesse meio do nada.” mas algo me fez dar meia volta mais uma vez e apostar no sexto sentido.

Achei novamente a placa que dessa vez me tirava totalmente da estrada e me levava numa pequena rua de terra até o topo do mundo. No meio das montanhas, no meio do silêncio. Assim no meio do paraíso encontrei o B&B uma propriedade linda perto do céu onde fui recepcionada por uma amável e sorridente senhorinha italiana.
Num incrível quarto branco de cama quentinha e toalhas grandes termina o segundo dia de aventura.