A área de transição estava em festa. Dez mulheres que competiam nos grupos de idade à vaga do mundial no Havaí. Das 10, éramos quatro da mesma categoria.

Houve uma conexão imediata entre todas. No meio de tantos homens, as poucas guerreiras dividiam experiências e sorrisos. Tinha Italiana, espanhola, austríaca, suissa…

A primeira saída foi dos prós, seis minutos depois a masculina dos grupos de idade e após quatro minutos finalmente nós mulheres.

A largada para nós foi as 12.40 hs Até agora estou tentando entender porque raios eles fazem a largada nesse horário, no auge do calor. O mais engraçado é que ser brasileira parece ser sinônimo de saber aguentar temperaturas altas:

“Eu não suporto calor, meu rendimento cai totalmente.”
Em seguida vem a resposta padrão: “Mas você é brasileira…”
Como se ser alemão ou suíço desse algum credito maior anti calor.
“Sim sou brasileira, não suporto calor e tem mais também não sei sambar!”

Das 162 pessoas que largaram 161 estavam de neoprene. A natação no rio Jerte foi provavelmente a mais traumática de todas as experiências; destreinada, sem neoprene em gélida água doce eu via o grupo de mulheres se distanciar. Sai da água, após muita luta e provavelmente 10 minutos depois da ultima mulher. Minha fama estava feita.

Entrei no mountain bike ainda atordoada, saí pedalando forte porque tinha o corpo frio da água. O começo do percurso me deixou pessimista “Lá vem mais um pedal sem técnica.” E de fato os primeiros quilômetros eram estradões ou singles feitos para girar.

Quando estava perdendo as esperanças o primeiro downhill técnico com pedras e dropes me arrancou sorriso do rosto, e nesse começo de prova deixei 3 mulheres para trás. o primeiro loop foi relativamente tranquilo, em alguns momentos era preciso descer da bike e empurra-la, trechos impedaláveis! O segundo loop tinha um uphill muito exigente e o calor estava castigando muito.

Ultrapassei mais uma mulher, que ainda lutou e ficamos disputando posição por um bom tempo. Depois do quilometro 26 eu já não tinha mais forças; a subida continuava e o calor piorava. Pedalei alguns momentos com Ceci, um senhor de 67 que exala bom humor, e mesmo com tanto sofrimento seguia cantando e fazendo brincadeiras.
“Calor infernal.” As palavras do briefing na véspera ecoavam na minha cabeça. No final da bike nem os downhills técnicos me divertiam mais, eu estava mais perto do meu limite, mas foi na corrida onde quase o ultrapassei ele.

Eu tinha duas informações: o depoimento do campeão do mundo de que a corrida era extremamente exigente, e alguém que me disse que subiríamos até as antenas.

“Venga Luli!” passou Ceci desta vez cantando garota de Ipanema.
“Ceci estou morta! Você jura que temos que subir até aquelas antenas?”
“Si!”
“Mas enconstar mesmo nelas?”
“Sim. Eu ouvi no rádio que uma brasilera estava mal, não é você né?”
“Sou a unica brasileira da prova.”
“Falaram que ela estava tendo muita dificuldade na água.”

Com esse comentário tudo que consegui fazer foi sorrir! Na água, na bike e agora na corrida, em nenhum momento a prova ficou suave para mim, mas o pior estava por vir. Ritmado Ceci se afastou me deixando sozinha novamente.

O calor dos infernos chegava dos céus e brotava do chão e piorava a medida que a subida ficava mais ingríme rumo ao topo. Eu parei em uma das pouquíssimas sombras que cruzei no caminho para tentar escutar meu corpo que gritava em silêncio.

“Será que descobri meu limite? Será que tenho forças para continuar? Será que devo continuar?” Nunca quatro quilômetros pareceram tão distantes.

“Venga! Já está quase mais um pouco você está no topo” Uma moça da organização vendo meu estado tentava animar.
Meu estado era tão ruim que nem na descida eu consegui correr. Tive que sentar mais uma vez.
“Você está bem?” o moto vassoura passava para checar.
“Não, estou morta. Você tem água?”
Aproveitei a ajuda para jogar mais água na cabeça e tentar baixar a minha temperatura corporal. Depois disso ainda parei mais uma vez ao ver o carro médico.

Quando avistei a catedral de Plasencia consegui correr novamente, nos dois quilômetros finais.
Comecei a chorar antes mesmo de cruzar o pórtico, ao passá lo me debulhei em lágrimas. Todo esforço tinha ficado para trás. Foram 6 horas e 20 de prova (No Havaí foram 4.47hs) segunda da minha categoria garantindo a vaga para o mundial pelo campeonato espanhol. Quem diria! Xterra agora a “Extrema dura” era história, uma boa história.

***
Me aproximando da tenda:
“Posso fazer massagem?”
“Você é aquela que nadou sem neoprene!”
***
Obrigada New Balance, Ready4, Suunto e à todo staff e organização do Xterra Extremadura.
Agora é beber a garrafa de vinho e ir até Amarante pedalando.
Não saiam daí!