Fiquei em um apart hotel na Guarda que era de uma senhora de 82 anos, cheia de energia administrava tudo quase sozinha. Me senti num castelo! Mas muito bem acolhida.
“Quando vieres para esses lados venha nos visitar.”
Saí cedo para mais um dia longo de pedal.

O plano era pedalar bastante para deixar um menor trecho para o dia seguinte.
Com 20 e poucos quilômetros de pedal cheguei a Freches, lá parei em um café para me garantir, afinal o dia anterior fora sem jantar.

Com pouco tempo de pedal a corrente arrebentou de novo, mas nada que minha super tesoura e mais uma pedra do caminho não resolvessem. Essa eu dedico para quem acha que pedras no caminho só atrapalham! =) Bike arrumada de novo!

“Para onde vais? E andas sozinha?”
Já consegui identificar uma verdade; quando no google maps da para escolher a rota de bicicleta ninguém acha estranho uma viagem de pedal sozinha, quando no google maps o máximo que encontra é uma alternativa de rota a pé, pode ter certeza choverão perguntas.
Adoro responder! O papo flui gostoso com os simpáticos portugueses.

“Então vais ter que passar por Trancoso! Até lá é uma picada!!!”

Sai do bar disposta a descobrir o que seria a tal picada, no meio dela já estava querendo voltar para baixo. Escalando a montanha por uma trilha cheia de pedras no meio de nada e longe de tudo. Coloquei a pesada mochila sobre a bike e segui assim empurrando sem pressa até o topo.

Passando por mais uma pequena aldeia, outra conversa curiosa com uma senhora:
“De onde eres?”
“Eu sou do Brasil.”
“Pois falas muito bem português!” (:)!) “E vens sozinha?”
Ai se a Sra soubesse a afronta que ela estava a fazer aos meu tios e bisavós!
“Não. Estou com Deus.”
“Então vais pagar multa porque a bicicleta é só para um!”

Mais para frente pouco depois das duas da tarde achei um café / restaurante. Inacreditável?! Seria mesmo um restaurante na minha rota? Não era miragem, e poderiam me servir.
Comi sopa, um bacalhau e de sobremesa baba de camelo (essa eu não conhecia) e ainda pedi azeitonas extras para levar na minha viagem.
Segui com sorriso de orelha a orelha.

O percurso mais uma vez estava incrível, e as velhas construções, muros de pedra e fontes datadas de 1900 o tempo todo faziam sentir que meus tios e avôs seguiam comigo, eu até podia ouvi los discutir, o tio Francisco falava em minha defesa e meu bisavô abanava a cabeça dando razão aos portugueses espantados que perguntavam se eu viajava sozinha.

O dia foi longo. Tinha poucas alternativas de parar para dormir era ou 8 ou 80 então tive que seguir para os 80 de pedal. Chegando em Queimada super cansada passei na frente da pousada que tinha pesquisado. Chamei, depois de alguns minutos aparece uma senhora.

“Ai menina! Os donos não estão, espera um pouco que vou telefonar.”
Antes mesmo de alguém atender eles chegam à casa:
“Nossa sorte que teve! Não íamos vir para cá hoje, nós moramos na Régua. Claro que pode ficar aqui sim!”

Numa pousada “Casal Viúva” com poucos e lindos quartos me instalei. e depois de um banho quente que estava precisando após as quase 10 horas de viagem, desci convidada pela família para jantar. Conversa regada a muitas perguntas e trocas de experiência. e vivência.
Fui deitar tarde e feliz!