_”Bom dia!”

_”Bom dia! A menina esta sozinha?”_me perguntou uma senhorinha de alguma pequena aldeia por que passara.

_”Sim, está um dia maravilhoso para pedalar.”

_”Isso é verdade e antes só do que mal acompanhada! Eu também sou sozinha. Sozinhos aprendemos muito. Vá com Deus!”

Ironicamente na minha bagagem dos quatro dias de trabalho eu trazia o que tinha aprendido com os outros. Foram quatro dias de imenso aprendizado, muito ao tentar enxergar realidade através dos olhos dos outros. Quatro dias de transformação.

O gritos no microfone, o barulho da musica, dos atletas agora era o silencio da serra. Pacientemente retirava as fitas que me mostravam os trilhos, transformando o aprendizado dos outros no meu caminho sozinha.

serra do marão“Adoro o Marão!” Sabia que o percurso não seria fácil e o calor (do dia mais quente do ano) dificultaria o processo, mas não havia cobrança. Éramos só nós; eu e meu anjo da guarda. Por mais piegas que possa parecer nunca me senti sozinha pelas serras de Amarante.

Empurrando a bicicleta morro acima ia me deliciando com as belezas de Portugal. Ora lembrando de um passado longínquo que muitas vezes me fazia sorrir; como a vez que fui limpar a serra da Aboboreira sozinha e tive que ser resgatada oito horas depois com apenas 15 quilômetros do percusso limpo. Dessa vez sem maiores obsessões, decidi que precisaria ao menos chegar até la em cima, não pelas fitas mas, pela conexão.

Vitoria e rafaelaJá no auge de exaustão passei por um vilarejo. Vendo duas meninas no terraço de uma das casas parei:

_”Há algum café por aqui?”

_”Há sim, deixa que vou perguntar à minha mãe!”

Não demorou muito já recebia as instruções de como chegar lá, enquanto a mãe explicava, Rafaela e Vitória muniam se de suas bicicletas.

_”Não acredito! Que lindas as bicicletas de vocês!” _tentando dividir minha atenção com as pequenas.

Vitória,a mais velha e sua bicicleta cor de rosa Daisy, resolveu me mostrar o caminho e me ajudar na retirada de fitas até o café. Sem pressa subíamos e conversávamos sobre muitas coisas na vida; bicicletas, amigos, competições, culturas. Chegamos ao café e tomamos duas coca-colas e dois sorvetes. Minha sede era tanta que em poucos minutos já não tinha mais nada.

Vitoria_”Desculpa eu estou a atrasar te.”_ a pequena retrucou preocupada.

_”Imagina! Não tenho pressa!”_ Ali muito bem acompanhada da minha nova amiga, me emocionei. Talvez nem precisasse mais chegar ao topo do Marão, meu dia já estava completo.

Depois do sorvete, Vitoria decidiu me ajudar com mais desmarcações:

_”Fazemos assim vamos subir, e quando atingirmos o topo dessa subida, você volta porque assim será somente descida até a sua casa, caso contrário sua mãe irá ficar preocupada.”

No alto nos despedimos.

Depois de uma pequena descida, voltei a subir sozinha. A medida que sobe-se as serras os povoados vão desaparecendo até que alcança se o céu. A medida que sobe, a velocidade já pacata dos vilarejos fica ainda mais lenta em nossa percepção. Lá em cima os barulhos terranos são abafados pelo vento. Lá em cima o tempo para. Paz.

Sentada curti o por do sol que anunciava o fim de uma jornada de mais de sete horas. Com apenas parte do percurso limpo, mas com uma sensação de dever cumprido desci feliz de volta à Amarante.

Serra do marão