Da janela de casa à distancia sempre namorei o Mount Warning, seu formato característico e suas histórias me atraíram desde que cheguei aqui.

Situado no Estado de New South Wales quase divisa com Queensland, o monte é considerado pelos aborígenes um lugar sagrado de cerimônias de iniciação.

Pico onde bate o primeiro raio de sol na Austrália. Famoso entre os aventureiros de plantão na apreciação do amanhecer no topo dos seus 1.156 m de altitude.

Vinte de setembro foi o dia escolhido para transformar o amor platônico em uma grande aventura. O plano era; pedalar setenta quilômetros até a sua base. Esperar o meio da madrugada para na calada da noite atacar o cume.

Eu li em alguns relatos que o nascer do sol era a hora do rush lá em cima, isso me desmotivava um pouco, mas considerando que as condições eram favoráveis (uma terça feira e a previsão de tempo estava instável) imaginei que pudesse ser feliz.

A ida de bike de casa até a base da montanha foi bem divertida, tracei a rota no movescount e fui seguindo pelo meu Suunto como tenho feito nas viagens de bike. Claro que sempre acabo me metendo em estradas privadas e as alterações e adaptações acabam acontecendo.

Isso fez com que eu chegasse a noite no local que tinha alugado. Após empurrar a bicicleta em uma subida escura com árvores, o céu abriu-se: lá estava “meu” chalé sob a imensidão estrelada daquelas noites que nos faz pensar na nossa existência. Mágica.

***

As duas da manhã o despertador tocou. Me arrumei e rápido saí para o ataque. Queria fazer tudo a pé (não só os 4 km de trilha mas também os 5 km de estrada de acesso ao parque.

Com uma lua cheia que dispensava o headlamp, saí munida dos meus trekking poles decidida a atingir o topo antes do nascer do sol. Claro que o headlamp acabou sendo muito utilizado, afinal das contas os bichos da Austrália nunca me deixaram tão à vontade.

A grande vantagem de subir no escuro é que não é possível enxergar a subida. Percebi isso quando desci de dia, desacreditando tudo o que tinha feito e tão rápido. Acho que daqui para frente vou começar a treinar no escuro. =)

Seis quilômetros depois, uma hora de estrada e 400 m de ascensão, estava na entrada da trilha. No meio da mata em track estreito e escuro continuei a subir, agora com mais dificuldade por degraus e trechos irregulares cheios de pedra. “Santo trekking poles que estavam adormecidos no meu armário esperando a grande aventura!”

No caminho de subida ultrapassei 6 pessoas entre elas três meninas que tinham passado por mim de carro no asfalto.

“Ela já está aqui!”

“Você deveria se inscrever no Ninja Warrior…”

Ao passar por elas agradeci e segui dando risada com o elogio.

Quase no topo, entre a mata e folhas de palmeiras, era possível ver o anuncio do dia. Tratei de acelerar ainda mais o passo para que vencesse o sol na minha disputa pessoal até o cume.

Os últimos metros de subida são uma técnica escalada guiada por postes e corrente; momento de guardar os trekking poles e escalaminhar para a conquista final.

Quando cheguei lá em cima tinham umas quinze pessoas, todas, em absoluto silencio já posicionadas para o leste.

Conquistei meu espaço.

Silenciosamente conectada com aqueles indivíduos que nunca vira, conectada com os que gostaria que estivessem ali, conectada com a imensidão do horizonte dourado e a energia sagrada da montanha, reverenciei o primeiro amanhecer australiano. Comemorando o inicio da nova fase e mais um ano, agradeci!

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