O Pico mora numa ilha só para ele, com 2350 m de altitude, a montanha mais alta de Portugal escolheu a vista do mar e do arquipélago dos Açores, batizando a sua própria ilha. Nada mais justo.

Juntamente quando começamos a descobrir competições para essas bandas foi que começou o flerte, e depois de não muita pesquisa parecia lógico coloca-lo no nosso roteiro de viagem:

“Ok. Primeiro competimos em São Miguel e no dia seguinte atacamos o Pico.” Rui parecia animado com o plano, pelas regras internas o aniversario era meu; a operação estaria então sob meu comando (hihi).

Uma casinha charmosa na montanha alugada no Aibnb parecia o lugar perfeito para a noite que antecedia o plano de ataque. “São 10 quilómetros do aeroporto. Vamos a pé?”

Como diria-se no Brasil; “Um levanta e o outro corta.”, parece não haver ideias malucas nas nossas conversas:

_“ Siga!”

Catorze mil pessoas,  população da ilha do Pico  , com isso ja imagina se o tamanho do aeroporto e a rotina da ilha numa semana fora de temporada.

De mochilas nas costas saímos do aeroporto sem pressa. O passeio foi encantador, pelo caminho vamos comendo frutas locais, além das tradicionais uvas e explorando as pequenas casas que seguem padrão; pedras e janelas vermelhas. O dia esta quente e o sol acompanha no meio de nuvens densas que escondem o protagonista. No clima dos Açores é possível ter as quatro estações em um único dia, a previsão não era das melhores para o dia seguinte, mas como a instabilidade é grande, tudo podia acontecer.Com a chave na porta a casinha branca de janelas azuis nos esperava escondida na montanha. Silencio e a vista encantam. As tecnologias modernas simplificaram tremendamente o planejamento de aventuras; foi fácil escolher uma casa que tivesse o acesso próximo a estrada que sobe para a montanha.

O plano de festas era tentar dormir bem cedinho para de madrugada sair de casa com destino a escalada. A ideia não era começar na casa da montanha (o portão para os aventureiros que escalam o Pico) e sim ja sair de onde estávamos; assim quase começaríamos o ataque na linha do mar e pouco antes do amanhecer do dia estaríamos no cume da montanha. Ou não.

Duas da manha o alarme tocou e chovia a cântaros. Oh não! Relembrando as corridas de aventura onde as vezes caminhávamos noite a dentro molhados, achei uma certa graça. A chuva ia e vinha mas foi só estarmos prontos para sair que o céu desabou. E assim ja ensopados nos primeiros metros seguimos em passos ritmados asfalto acima. O calor do exercício mantinha o corpo feliz e mesmo molhada ainda estava me divertindo. “ Vai melhorar.”

O Rui levava lanterna, mas que muitas vezes a gente apagava para ver o cenário. Poucas luzes na linha do horizonte as vezes nos deixavam ver as ilhas irmãs, as nuvens também se faziam ver mesmo no escuro da noite. Alguns momentos de estiagem nos tranquilizavam e realizavam.

Com mais de 10 quilómetros, a chuva apertou, com ela entrou um vento a altitude trouxe o frio. Os últimos  quatro quilómetros para chegar na casa da montanha, que não chegava nunca, foram sofridos e meditativos. Ha um ano atras nesse mesmo dia eu estava vendo no sol nascer no Mount Warning um nos picos aonde bate os primeiros raios de sol na Australia, num dia de sol intenso nada parecido com a condição atual. O que os Deuses querem me dizer? Tentando encontrar uma conexão dos fatos. Não posso mandar em tudo? Não era a minha operação? Que diabos!?

Quando chegamos na casa da montanha era sinal que ainda faltavam 1000 m de ascensão e a metade da quilometragem que tínhamos acumulado até ali. Eu ja estava congelada e sem conseguir aproveitar o momento.

Desacreditado e ainda sonolento o ranger da casa da montanha pacientemente nos deixou tomar a decisão se queríamos enfrentar a montanha ou não. Enquanto eu ainda não tinha certeza tentava secar e esquentar meu corpo com o ar quente no secador no banheiro.

Será que a idade estava me trazendo a maturidade? Ou comodismo?

“A câmera não mostra nada; ha névoa, vento e chuva, é o que o cume ira proporcionar para vocês. Sol? Não nem pensar.”

Como chefe de operações resolvi abortar o ataque. Meu fiel escudeiro abriu um sorriso e me esquentou em seu abraço sem hesitar. Sem pressa tiramos nossas comidas pedimos um chá e um café e brindamos as muitas primaveras e o primeiro outono. Life is good!

Bonito seria mesmo se a historia tivesse terminado por aqui, mas não. Parecendo pirraça, horas depois no mesmo dia, quando estávamos no pequeno aeroporto com o cartão de embarque em mãos o Pico mostrou sua cara, e soberano la do alto, como quem pudesse se desculpar, dizia “Dou vos razões para voltar!”