O Rui iria para a Trans-cavado competir, como depois dos 600 k do The Castles Quest eu já não aguentava mais olhar para a minha bicicleta decidi encarar os 15 quilómetros de trailrun no Douro Ultra Trail, uma prova que mora no meu coração.

Assim na sexta feira, véspera da prova, poderia trabalhar mais uma vez na organização. Meu trabalho seria ajudar na entrega dos kits e recepção do atletas.

Devido a um risco muito grande de incêndio e calor o percurso das provas de 45 e 80 teve que ser cancelado por medidas de segurança.

Frustração.

Frustração da organização que passou tanto tempo trabalhando para que a prova acontecesse e frustração dos atletas que treinaram para a mesma.

Nesse cenário menos privilegiado de ambiente de trabalho me encontrava para receber os atletas que iriam correr as menores distancias. Duas distancias iriam acontecer, 15 e 25 km.

Eu sempre curti estar do outro lado do balcão, do outro lado do abastecimento, do outro lado da medalha, talvez porque conheça os louros da vitoria, o valor do suor, do esforço, o caminho sinuoso da conquista. Ou talvez porque goste de sentir a energia das pessoas, de ver os sorrisos de satisfação e abraços de comemoração.

Trabalhar de staff nem sempre é fácil; é assumir responsabilidades dos outros, é responder por algo maior, é também, como em qualquer prova, preciso dar o seu melhor.

O meu melhor na sexta feira, estava ali, sentado numa cadeira tentando ajudar atletas a receberem rapidamente os seus kits:

“Esse problema é seu!”

“Ah, Luli, tem também esse outro problema aqui.”

“Ola! boa tarde, tenho uma reclamação.”

Assim adotando problemas comecei a tarde. Porque sim, eles são meus, todinhos meus. Mas munida do meu melhor e armada de um sorriso que decidi que manteria a todo custo segui tentando reverter algumas más energias. 

Ali do outro lado do balcão me tornei uma pessoa melhor, não pela “Madre Teresa de Calcutá” que resolvi incorporar, porque essa foi a parte mais fácil do trabalho, mas porque me vi nos atletas, me enxerguei em situações que eu provavelmente adotaria uma postura parecida.

Problemas existem porque nós criamos. É eu sei, lá vai a Madre de novo…

A gente tem muito disso, involuntariamente, quando vamos a um lugar vamos esperando o que ele tem a nos oferecer, uma vez que o que deveríamos pensar é o que nós podemos oferecer, a energia que nós podemos dar, para deixar o ambiente melhor. 

De repente, foi como se o balcão desaparecesse. O outro lado não existe. Percebi que a postura que tinha adotado para receber as pessoas deveria ser a postura que eu levo como atleta nas provas, deveria ser a postura que acordo, a que eu levo para onde for. Sempre. 

Como posso fazer meu dia melhor eu sei, agora a questão é outra: 

“Como eu posso fazer o seu dia melhor?”  

 E assim, fazendo o seu dia melhor, o meu ficou muito!