Competir e se divertir, talvez seja combo mais difícil de conquistar; a competição gera estresse mesmo que involuntário que inibe a diversão.

Desde que comecei a competir diversão sempre foi prioridade. Daí veio a bóia de alce e sapo na cintura, buzina na bicicleta e antenas no capacete, para que no meio da adrenalina o riso sempre prevalecesse.

E quando a Dri e eu estamos correndo juntas então? Temos um histórico divertido de que toda Santa vez que nós viramos a chave e resolvemos brigar por posições algo dava sempre errado. Até o dia que interpretamos isso como uma mensagem do universo de que nós não nascemos mesmo para isso. Nossa missão no mundo das competições é nos divertir e divertir os outros. Contagiar com alegria!

Algarve Bike Challenge é a segunda vez que Rui e eu competimos juntos. Na primeira, também competição por estágios, quebramos na etapa 1 e antes mesmo de finalizar o dia já tínhamos virado a chave para a diversão.

Dessa vez chegamos mais treinados. Largamos para o segundo dia de prova displicentes no aspecto competitivo mas através da diversão crescemos na prova e competindo conseguimos chegar bem e fortes até o final. Isso fez com que endossássemos a nossa estratégia em aliar as duas coisas para terceiro dia.

A etapa de hoje era ligeiramente mais curta (77 km) mas de altimetria e terrenos similares. O calor estava mais forte e isso podia ser um complicador.

Nós falamos menos do que ontem. Muitas das vezes eu ouvia o Rui antes mesmo dele falar, outras os gestos me instruíam o que fazer.
“Vai certinho! Não acelera! Gira as pernas!”
Automatizamos tanto o engate e desengate da coleira (trela) que nos sobrou tempo para outras preocupações e cuidados:
“Hidrata, come!”

Seguimos num rimo forte e alinhados curtindo imenso os trilhos e mais um dia ensolarado.

Em uma subida enquanto ultrapassávamos uma dupla:
“Mira, mira!”
O espanhol vira-se para o lado e ri ao ver minhas antenas, mas gargalhadas mesmo ele deu a hora que percebeu o reboque!

Foi mais um dia a coleira divertia as pessoas: “Também quero uma!”
“Tu tens a força de um cavalo!”
Comentários e brincadeiras não faltavam, às vezes o Rui respondia;
“Ainda chego em casa e tenho que lavar, passar e cozinhar!”

No quilômetro 30 numa subida avistamos duas duplas mistas. Déjà-vu! Só que dessa vez teríamos que sustentar o ataque por mais quarenta quilômetros.
“Siga.” Aceleramos.

No quilômetro cinquenta o Rui começou a sentir todo o esforço que tinha feito sob o calor até ali me puxando. “Vai na frente que eu vou tomar um reforço.”

Encarei a subida e segui acelerando. Nossa adrenalina e espírito competitivo são muito iguais e funcionam de maneira bem parecida. Estávamos empolgados!

No último abastecimento paramos com mais tempo de nos repor. Ainda tinham 20 quilômetros pela frente e queríamos manter o ritmo.

Coca-Cola, laranjas, Redbull, gomas e batata frita. É incrível como numa prova de 900 atletas eles conseguem conservar as bebidas geladas e a mesa cheia.
Recarregados seguimos focados.

Num singletrack com partes técnicas pouco mais a frente passamos outra dupla mista (pró!) que não tinha as mesmas habilidades técnicas que a gente. Eles seguiram na nossa bota por muito tempo.

“Faltam poucos quilômetros e eles estão colados na gente!”
“Calma!”

O Rui tinha razão, o percurso estava do nosso lado; entramos num singletrack com uma descida muito íngrime. Nos quilômetros finais veio plano e asfalto, sem olhar para trás, conectada e no vácuo, coloquei toda a força que tinha no pedal. Cruzamos a meta de sorriso no rosto e alma cheia.

Resultado do dia: 12o na categoria, sete posições melhores que ontem. Nossa prestação hoje foi 57 posições melhor na geral. Resultado final: 14a dupla mista!

Competição e diversão nunca pedalaram tão conectadas como hoje. Nosso melhor de sempre esta feito!

Obrigada Algarve Bike Challenge, organização impecável, final de semana cinco estrelas.

Rui, nem vou falar, agradecimento telepático chegando ai em 3,2,1…