“Tenho que ir ver a bike no outro hotel né?!”

Com o celular na mão a moça liga para Ashley (nota; todo Chinês escolhe seu nome oriental) que fala inglês, em alta voz me dá as instruções para que eu fosse de táxi até o outro hotel.

Resumindo a história, na garupa da moto eu fui com a recepcionista encontrar a bike que iriam me alugar.

A história merece um a parte; ninguém na China usa capacete, o trânsito é aquela confusão mas existe respeito e ordem na desordem, se é que da para entender.

“Existe uma lei que todas as motos  tem que ser elétricas.”

Isso realmente tinha me chamado a atenção já no dia anterior. O silêncio da cidade, motos elétricas e bicicletas por todos os lados sem barulho. Sensacional!

Depois de ver a bike e aprovar, agora foi a vez de Ashley me levar na garupa para trocar dinheiro no banco.

“Você trabalha 24 hs por dia?”

“Não, trabalho 16, fico nos dois hotéis.”

A simpática Chinesa, resolveu tudo o que eu queria com boa vontade e rapidez, inclusive assuntos que nem eram relacionados com a minha estadia. A bike do hotel que aparentemente não costumam alugar me foi disponibilizada e as dez da manhã estava saindo de Guilin. 

Eu já tinha colocado o trajeto no relógio antes mesmo de sair de Portugal e marcara também o hotel do destino do dia. Era só pedalar a rota e desfrutar o as montanhas e o tempo nublado porém com boa visibilidade. 

Eu sabia que tinha uma pequena cidade Daxu, no meio do percurso e na hora do almoço já estava do avesso de fome.

Difícil tomar a decisão de escolher um em particular para parar, mas quando já não aguentava mais vejo uma senhora me convidando para entrar no seu restaurante.

“Paro a bike aqui?”

Eu já nem gasto mais meu inglês.

A mulher responde em mandarim que sim.

Aponta uma mesa onde eu me sento. Logo já traz um chá.

“Obrigada mas eu quero comer.”

Começo com a mímica “No Muuuu, no oinc oinc.”

Ela me responde que é só um chá, claro que não tem vaca e nem porco no chá!

Eu quero comer “Nham nham.”

Ela me mostra o cardápio.

“Eu não entendo Chines.”

Aí ela pacientemente me escreve bem devagar.

“Também não sei ler!”

Aí ela me chama e me leva até a cozinha. Eu aponto um legume que lembra uma couve. Problema resolvido!

“Acompanha arroz!” Ela me mostra a panela.

“Sim, pode me servir?”

E assim quase sem barreiras de língua, sem tradutores nos entendemos perfeitamente.

Agora já podia voltar a pedalar. O track no começo acompanhava o rio Li e as formações Karst iam ficando mais frequentes.

Um desvio para cima, sabia que mais para o final do dia teria que subir e escolhi esse caminho porque já podia imaginar as vistas da região. A verdade é que qualquer foto, video desmerece a grandiosidade e beleza única desse paraíso.

Quando encarei a subida, comecei a passar uma turma de ciclistas, todos bem mais velhos com suas bicicletas também carregadas. 

Quando chegamos num ponto famoso de vista eles vieram examinar a minha bike.

“Não é minha.”

Dessa vez não entenderam e fizeram jóia.

As duas senhoras do grupo vieram tirar foto comigo. 

Essa região tem grandes incentivos ao ciclismo em todo lugar vê se esculturas e pinturas talvez por isso tenha sido tão fácil achar uma rota ciclável no suunto

Na outra parada de outra vista (sim é para todo lado que se olha) encontrei com a turma novamente. Este lugar estava com turistas e perdi a conta das pessoas pediram para tirar foto comigo, um ser loiro no mundo dos olhos puxados pelo visto chama atenção.

E quando vi já segurava o bebê de alguém no colo, para outra foto. Essa cena me fez rir sozinha algumas vezes pelo caminho.

“I can take a picture of you!”

“Oh! You speak English!”

“Are you alone?”

Quando respondi que sim, estava sozinha a chinesa sorriu e aplaudiu.

Achei um lugar mais tranquilo e sentei. Três chineses vieram e me deram nêsperas e mexericas  aproveitei a oferta agradeci em mandarim e curti o meu silêncio comendo frutas e apreciando a vista.

A aventura de um dia só que nem chegou ao fim já rica em histórias para contar, ainda tem de todas as paisagens, que eu andei arrastando uma lixeira só para conseguir um ângulo de foto, ou no jantar que eu pedi, em mímica, guardanapos para limpar as mãos e o garçom me trás luvas de plástico. Ficam fotos das lindas paisagens:

Xinping, chega o destino final do dia, depois de 70 quilômetros pedalados, talvez um dos pedais mais lindos que fiz.

Xinping Um vilarejo charmoso e pequeno, isolado por montanhas incríveis e sua famosa curva no rio Li que ilustra a nota de 20. Hora de passear mais um pouco.

A China é maravilhosa, os chineses que cruzei foram sempre muito solícitos e respeitadores. Um povo amoroso. Vale o ditado; “East or West, China is the best.”

Amanha tem mais! To be continued…