Da Itália para Eslovenia (Bike Day 2)

Meu plano era ir de trem para Veneza porque tinha um barco que saía de lá no final da tarde com destino a Croácia. Os trens que levam bikes são os regionais, os trens mais rápidos só levariam a bike se desmontada e embalada. Na estação ainda cogitei ir direto para Trieste que é a última cidade italiana na divisa com a Eslovénia. Comprei a passagem de trem para ir para Veneza.

No caminho tentei comprar online o barco mas a compra não deu certo. “Quando chegar lá eu vejo.” Na viagem eu fiquei me assombrando; chegar à Veneza, com aquela turistada? Ficar fazendo o que, até o horário de pegar o barco? A ideia da muvuca e falta de paz imediatamente me fez mudar de planos. “Talvez seja melhor eu pegar o regional até Trieste.” A troca de trem era apertada. Não daria tempo de comprar o ticket. Olhei o número da plataforma e peguei dois elevadores para chegar lá, e resolvi ir assim mesmo.

Muitos bikers esperavam o trem. “Você está aqui para …”

Eu não entendi o que ele me perguntou mas respondi que não. Na hora de entrar no trem a cobradora me indicou a porta, fiquei de pé com mais 3 bikers.

Esses dois amigos que tinham me perguntado se eu estava indo…

“Nós estamos indo num pedal hoje da COP.”

(Olha só o que eu descobri no mundo da bike que eu não tinha noção que acontecia.)

Todo ano a COP conferência mundial sobre meio ambiente e mudanças climáticas acontece uma bike ride que liga o país do ano anterior (nesse caso) Belém, Brasil ao local da conferência desse ano Antalya, Turquia.

“O que? Quer dizer que tem algum maluco que vem pedalando de Brasil pra cá?” Um ou outro. Esse ano eles me disseram que tem uma brasileira está a caminho com o cachorro.

“Do Brasil?”

Claro que a maioria dos bikers se junta para pedalar alguns trechos dessa bicicletada, que deverá chegar em novembro no país sede, quando acontecerá a conferência.

“Você não quer vir no pedal de hoje? Eles tem tudo organizado!” Por alguns segundos eu cogitei, em descer do trem com eles e pedalar pra outra direção, se não fosse a escassez de tempo, certamente iria.

Eles desceram, mas não sem antes analisar toda a minha bike, perguntar que tanto peso eu carregava e palpitarem na minha rota.

“Pra que tanta comida? Você leva um pantone aqui?”

Um deles fabricava bikes de cargas (daí toda a inspeção) “Sério? Meu irmão também fazia isso!”

Ao descerem ainda me passam instruções.

“Vai pela costa, porque a saída de Trieste é uma escalada.” Eu segui viagem.

Chegando em Triste decidi que iria contrariar as recomendações e iria encarar a subida. Melhor cortar a Eslvenia pelo meio, saímos do obvio, sairemos da muvuca.

Toca a subir.

Na maioria das vezes onde tem a maior subida é porque a fronteira deve estar lá. Lá, tá vendo? No topo.

Antes de cruzar a fronteira achei que seria melhor garantir aquele ultimo gelato, para me despedir como se deve do país que me deu tantos.

Nenhum controle na fronteira. Também…quem invade um país no meio do nada depois de uma subida dessas?

Na Eslovenia encontrei de certa forma o que eu procurava; uma estrada relativamente tranquila, paisagens de montanha, campos verdes e absolutamente nenhum turista. Otimizando meu tempo e felicidade, já pensou a essa hora estar esperando o barco em Veneza me debatendo com zilhoões de turistas? Prefiro ter a memória intocada da visita de anos atrás com minha avó!

O calor estava daqueles “um sol para cada um” e o horário que eu comecei a pedalar hoje foi justamente o mais quente.

A paisagem bucólica traz paz. Fique impressionada com a quantidade de lenha estocada nos quintas das propriedades. Daí já da para ter uma ideia do inverno que deve fazer por aqui. A estrada tb tem sinalização de neve. Chega a ser até difícil visualizar com o sol derretendo meus miolos.

Minha ideia seria pedalar muito. Muito, tipo, atravessar o país e já chegar na Croácia hoje, mas com os 85 quilómetros de pedal de ontem aliados ao calor, meu corpo já começou a dar sinais de falência. Sim! Falta de almoço também, mas meu saco de “pantone” me salva bem.

E umas maças colhidas da beira de estrada, que além de lenha tinha muitas macieiras!

Para. Analisa o mapa. “Ixx! Ainda to no meio do país” e sim ainda tinha no gráfico de altimetria uma subida sinistra. Obvio que deveria ser a derradeira para a conquista da Croácia. Hum, acho que meu corpinho não terá energia suficiente para prosseguir.

Temos hotel? E no meio do nada quando começo a procurar hotel, aparece um daqueles de beira de estrada com restaurante e na foto lulas grelhadas. É para lá que eu vou. Quinhentos metros para frente.

“Tem quarto?”

“Tem um.”

Segui a recomendação do homem “Janta primeiro!”

Agora sim cruzamos fronteira. Tchau Pizza, boa noite lulas grelhadas!

Até amanhã!

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One Response

  1. Começo pelo final: Essas lulas são dotadas de uma beleza que dá vontade comer!!!

    Pensa numa pessoa dotada de audácia.
    És tu!!!
    O sol é todo teu, disfruta de cada kilometro sereno e silencioso, sigo contigo e com a Dura a dizer disparates e a sonhar com o próximo ponto de degustação 😍🌸🌸

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