Um dia de fúria no pedal (Bike Day 3)

Após uma omelete no meu simpático hotelzinho, montei na bike e rumei pela estrada em direção àquela subida que ontem eu não tinha energia de atacar.

A estrada hoje acordou mais movimentada.

O plano traçado para o dia era de quase cem quilómetros. Eu faço o percurso no Garmin Connect e vou ajustando a parada conforme necessidade; visto ontem que fiquei sem energia para cruzar a fronteira da Croácia.

A estrada faz uma curva e finalmente estro em uma variante bem mais tranquila.

Ufa! Agora dá para curtir o visual sem interferência. Deve ser a subida com destino a fronteira!

A segunda fronteira, sem controle nenhum. Se eu soubesse teria enviado meu passaporte para Montenegro. hahaha.

Na subida ja percebi que meu corpo não iria ter energia para o pretensioso plano do dia. Mas vamos chegar à praia primeiro, depois a gente decide o que fazer.

Um descidão e Voilà aquela costa bela que a gente não esquece. Rijeka, uma cidade grande. Decidi ir até o porto de ver se conseguia um barco para descer pro sul. Dois barcos da Jadrolinea a empresa de ferries que transporta os atletas na competição de bike 4 Islands. Uma das provas de bike que mais curti fazer!

Vendo marinheiros no serviço me aproximo do catamaran atracado.

“Para onde vão? Aceitam bikes?”

“Sim, para onde quer ir?”

“Para o sul, pode ser qualquer lugar.”

“Saíremos as 17h.”

De acordo com as informações deles eu tinha duas opções de ilhas. Pesquisei qual seria melhor para seguir meu caminho e aproveitando que tinha muito tempo até a hora de saída fui procurar um restaurante em Rijeka.

Desviei da feira seguindo para o restaurante tailandês que eu achei referencias no google. Tailandes!? É eu sei mas nada como um padthai para garantir a minha dose de carbo hidrato e proteína da hora. Como pedalar horas por dia acelera o metabolismo! Misericórdia.

Depois do almoço antes de fazer qualquer coisa resolvi ir comprar a passagem do barco.

“Para mim e para a Dura.”

“Não aceitamos bike!”

(Bem que a chat já tinha me avisado) “Mas os marinheiros me confirmaram que sim!”

“Acho bem duvidoso que isso tenha acontecido.” *Abre parênteses; Arghhhhh! momento de raiva que deu origem à série.

Antes de pegar a estrada passei na frente dos dois catamarans para ver se ainda achava alguém que pudesse me socorrer, mas não. As minhas pesquisas antes de chegar aqui na Croácia, a chat já me avisava “Será difícil embarcar com a bicicleta.”

Agora vê lá isso; a Croácia tem mais de mil ilhas, uma costa magnifica, alguns ferries e centenas de rotas de catamaran. Aceitam bike? só na meia dúzia de ferries (que não fazem grandes travessias, mas pequenas ligações entre continente e algumas ilhas). Era uma vez um paraíso.

Minha parada de uma hora de almoço com a cabeça que o dia de esforço tinha terminado, deu para eu ressetar o corpo e ligar meu garmim de novo pra começar a pedalar novamente.

Aí entrei numa estrada, sem acostamento, de duas mãos, com um belo movimento de carros. Quando tracei a rota, fiz por estradas de asfalto, porque com a Dura, de pneus finos e carregada do jeito que está não daria para pedalar por trilhas de Mountain bike. Ainda mais aqui na Croácia que as trilhas tem pedras até dizer chega.

Quando o Garmim faz a rota ele escolhe sempre a melhor opção dentro das mais populares. Eu sempre endosso com o google escolhendo a opção bike. Que existe para quem pedala na França, Italia ou Dinamarca. Saiu de países bike friendly, é para esquecer! Opção bike inexistente. Aí vc poe a pé e reza.

Até cruzar para Krk, uma das ilhas, sobre uma das pontes arquitetonicamente  famosas eu pedalei em estradas que nem acreditei que bike poderia ser permitida. Quando cheguei na dita ponte até pensei que pudesse ser barrada pela policia. É isso mesmo? 80km/h ?

“PQP manooooo!”  Momento de raiva crescendo. “Será que terei que pedalar o dia todo assim?” Não dava para tirar fotos, não dava para fazer nada, a não ser tentar gerir o estresse. Com tanto carro eu não estava conseguindo.

O bafo do calor agravava ainda mais a situação. Quando a estrada de uma “acalmada” (repara nas aspas) e passou beira mar eu decidi parar para nadar.

Por alguns minutos consegui relaxar.

Aqueles quase 100 quilómetros do dia deveriam ser reais. Tinha uma travessia de ferry saindo dessa ilha 8 e tanto da noite. Pelos meus cálculos de ferries e opções de rota talvez fosse melhor eu pedalar mesmo!

Tenta absorver o maximo de maresia, acalma a cabeça e vai.

Os cinquenta e tantos quilómetros de pedal da tarde foram nesse regime estressante de dividir estrada movimentada com caros.

Ai comecei a criar teorias.

Todo país é excelente para pedalar, a Croácia mesmo é dos países que mais me diverti pedalando mountain bike; tem trilhas técnicas, vistas maravilhosas e opções de pedal que se fartem. Aqui vem a pegadinha; pouquíssimos países são bons para ciclo viajar. Ciclo viajar, le se ir de um ponto à outro, são muito poucos. E se infelizmente você sai de um deles (Itália) e entra em “no mans land” o choque é ainda maior.

Para não dizer que foi sempre assim, teve una três quilómetros talvez? Em que sai da estrada para uma pouco mais light: Ai consegui até tirar foto.

A foto, que não tem nada de tão bonita, vê se o silencio.

Cheguei no porto e fui pedir instruções de onde pegar o barco. Denis um marinheiro super simpático me deu indicações, conversamos por alguns minutos sobre bike, barcos e nos desejamos uma boa vida.

Dificilmente eu estaria fora a noite, se não fosse pelo horário que eu tinha que pegar o barco, provavelmente já estaria na cama. Por outro lado há tempos eu não via um céu tão estrelado.

Deitada num dos bancos do ferry vazio, sentindo a brisa fresca da viagem, depois de um dia perdido no meio de tantos carros, a noite me trouxe as estrelas. Até amanhã!

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One Response

  1. Dá até aflição pensar no perrengue que é estar num país que não é bike friendly
    Mas quem é feliz, acha sempre forma de contornar e achar motivos para diversão 🥰🥰🫶🫶🫶🫶🫶 siga a viagem!😍😍😍😍

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