Quatro e meia da manhã o despertador já tocava. A gente queria entrar no rio cedo e esperar embaixo da primeira ponte, conforme o combinado, para largar.
Fomos uma das primeiras embarcações a entrar na água. De manhã a visibilidade era baixa porque o sol ainda estava prestes a nascer.
Finalmente tinha chegado o grande dia. Nesses momentos assim; de largadas de grandes desafios sou invadida por aquela sensação de momento presente e magia, a felicidade invade:
“Mana obrigada, estamos aqui onde sonhamos estar. Agora vamos nos divertir!”
Os tons rosados do dia quente que se anunciava iluminavam as embarcações e atletas; eram caiaques, canoas e stand up paddle. Nós duas as únicas em uma sup tandem.
Alguns apoios embaixo da ponte tentavam animar a largada informal.
“Cadê o Moab?” Pronto! já tínhamos perdido nosso apoio e a prova nem tinha começado.
Havíamos recebido muita mensagem e prece de todos os cantos do mundo e toda essa energia chegou para gente em forma de vento. Certeza que o empurrãozinho que precisávamos veio daí.
“O vento vai ajudar!” Tantos nomes o vento soprava.
O briefing dizia que o primeiro dia já seria uma prova de resiliência; plantas, muitas plantas no fundo do rio prendiam se na nossa quilha.
Para nossa sorte já tínhamos feito o reconhecimento e nele descobrimos que andar com plantas na quilha atrapalhava brutalmente o nosso desempenho.
O sistema para limpar a quilha era exigente; a Dri tinha que se ajoelhar mais para trás da prancha possível e tirar os longos cabelos verdes que se agarravam na quilha. Enquanto tentávamos nos equilibrar para não cair.
A nossa quilha foi cortada de seu tamanho original para possibilitar andarmos mais no raso. Nesse ano falta muita água no rio; o Loire está muito baixo.
Já apelidávamos a prancha de colchão de ar, e a quilha que foi cortada pelo nosso amigo Carlos virou a quilha da cozinha! “Imagina só se o organizador visse a nossa quilha!”
Muitas partes do rio não tinham opção de passagem a não ser por cima das plantas. Logo depois disso a remada ficava muito pesada:
“Higienização!” Nosso vocabulário próprio começava a tomar forma já nas primeiras horas juntas. Higienização; hora da Dri limpar a quilha.
Sempre soubemos que precisaríamos ter muita estratégia e ser extremamente eficientes para conseguirmos ficar na prova sem tomar corte.
É preciso fazer tudo que temos que fazer; limpar a quilha, nos alimentar, “ir ao banheiro”, tirar ou por casacos, esfriar o corpo (o primeiro dia o calor estava bruta)l e fazer portagens, MAS tudo isso deveria ser feito de da maneira mais eficiente possível. Qualquer minuto, para a gente, seria crucial e decisivo.
Já começamos bem alinhadas; eu ficava no controle dos tempos, na comunicação e logística com o apoio e responsável pela alimentação de toda hora. A Dri que remava atrás ficava responsável pela limpeza da quilha, cuidado com a prancha e ficava com a alimentação de mais sustância que era precisa quando o corpo já estava com mais horas de esforço.
Meu camel Back foi sempre na prancha, para não colocar no colete peso desnecessário, nele água misturada com Coca Cola, sais de hidratação melhor que isso não há! Nós já tínhamos feito essa “suplementação” na SUP11 e sabíamos que funcionava bem no nosso corpo em repor sais.
Com velocidade boa e vento nas costas no primeiro dia ainda encontrávamos com outros atletas, andamos perto dos alemães que remavam 4 canoas havaianas, de 1 e 2 lugares. Um deles virou para gente;
“Respect!”
E olha que um “respect” vindo de um alemão tem peso dois, não acham?
“Moab, na próxima parada queremos Perpetum!” Um dos recuperadores e suplementos que conseguimos tomar durante a competição pelos três primeiros dias de prova, depois disso nosso corpo já começou a reclamar e rejeitar. Em provas de endurance a alimentação é ao mesmo tempo das coisas mais importantes e mais complicadas. Outro aprendizado que a escola “corrida de aventura” nos deu bagagem.
As paradas na margem para encontrar com o Moab também eram bem rápidas; trocávamos os camels pegávamos sanduíches ou a reposição que precisávamos e já combinávamos a próxima parada.
“Agora tem uma portagem no quilômetro 65.”
A quilometragem era algo que a gente não se prendia muito, em termos de objetivo. Sabíamos que teríamos que remar por 16 horas diárias; das 6 da manhã às 10 da noite. Quantos mais quilômetros conseguíssemos, melhor seria. Contar quilómetros não parecia uma boa ideia, ainda mais remando a 7 ou 8 por hora.
A primeira portagem da prova era na vila de Digoin, sob uma linda ponte. O troço era pequeno e o Moab já esperava a gente. Fomos extremamente eficientes e rápidas com a ajuda do nosso apoio que tirou a prancha da água e colocou do outro lado enquanto a gente se reabastecia de comida.
Ali passamos os alemães que remavam aquelas embarcações de carbono e gigantes. Gigantes e complicadas para qualquer tipo de portagem. Afinal não era em todo o terreno que a nossa prancha 12 inflável tinha desvantagem; nas portagens nossa embarcação era das melhores e nossa estratégia perfeita.
Havíamos estudado o rio e todas as passagens com muita antecedência. E o que seria impossível lembrar ainda tínhamos o Moab como parte da equipe que chegava na frente e analisava o terreno. “Passem por aqui que está melhor!” “Strategie, strategie!” O grito de guerra da nossa equipe foi aos poucos tomando forma.
“Atenção próxima passagem de possível portagem, os apoios não tem acesso!”
Quando chegamos perto do quilômetro 96 percebemos o enrosco que era a grande corredeira que se aproximava.
“Luli, Luli, talvez seja melhor optarmos pela portagem!” A Dri com uma voz de pânico alertava.
A verdade é que quando ela disse isso, já estávamos sendo fortemente sugadas pelo rio e não tínhamos mais escolha qualquer.
“Dri, agora temos que remar! Rema, rema, rema!”
Num ritmo frenético e adrenado passamos por uma corredeira brava com grandes calhaus e depois, bem sucedidas, comemoramos aos gritos.
Perdemos algum tempo para conseguir alinhar com o Moab aonde teriam paradas para sairmos da água e montar acampamento.
Numa praia embaixo da ponte junto com algumas outras equipes terminou o nosso dia. Com mais de 15 horas de remo e 110 k. Dentro do que havíamos programado.
“Duro não?” Nossos amigos que estavam em caiaque duplo.
“Piece of cake! Très facile!”
(Essa é outra estratégia nossa; hastear a bandeira branca jamais)
Guerra é guerra. Tá tudo muito fácil!
As equipes até riram com os passos de samba que a Dri ensaiou!
“Remar 110? Easy!”
O Moab fez sopa e tapioca enquanto a gente montava as barracas. Foi tirar a roupa molhada, comer e deitar para tentar recuperar nas poucas horas de sono que tínhamos.



2 Responses
Nossa meninas, estou emocionada com vcs, guerreiras!
Nosso amigo 100 futuro, fez um apoio show! 👏🏼👏🏼😍
1 milhão de Parabéns p essa equipe!
Admirável encrenca ….