Hyrox Mechelen, por uma first timer.

Eu já tinha encanado que iria fazer um Hyrox desde o ano passado, mas a inconstância de treinos específicos e falta de agenda ainda não tinham me deixado. Março está.

Não que os treinos ganharam muita consistência especifica para chegar até aqui; quinze dias atrás quando estava fazendo o reconhecimento da viagem de Italia de bike, tratava de fazer agachamentos antes de sair para pedalar. Comprei uma agenda para pode anotar a minha progressão nos exercícios específicos. Visualmente ter os dias pintados à caneta me confortava o espírito.

Para quem não conhece, o Hyrox é uma competição que intercala 1 quilometro de corrida com oito estações de exercícios variados. A ultima estação são 100 wall balls; uma bola de 4k (no meu caso) arremessada num alvo de 2m70 de altura, feito após um agachamento completo com a bola em mãos.

Wall balls, o exercício que me lesionou quando entrei no Crossfit. Foram dois anos trabalhando mobilidade do corpo e tentando perceber como resolver o movimento de agachamento adequado a minha anatomia, para o que nome Wall Balls pararasse de me assombrar.

Os poucos treinos específicos foram sempre atropelados por competições, final de semana passado o Duatlo de Famalicão. Meu corpo já vinha com o HRV baixo do acumulo de 470k de pedal na Italia e, na véspera da prova eu senti a garganta. A prova só ajudou a acelerar pra onde meu corpo já estava querendo ir. Segunda feira acordei doente.

Quarta vim pra Bélgica já com a cabeça às voltas. “O que que eu vou fazer?” Quinta já estava quase conformada em encarar  uma de turista em Mechelen, que por sinal é uma graça. Sexta já acordei estudando o calendário para tentar ver quando conseguiria encaixar de novo um Hyrox. Talvez no final do ano. Talvez.

Minha prova era às 18:20 da sexta feira. Às 16 resolvi ir até o estádio para dizer que não iria competir. Me encaminharam até o guest relations. Tjmon, um belga super simpático conseguiria trocar a minha prova para domingo, eu até tentei mudar meu voo, mas não deu certo. “Não irei fazer.”

“Já está pago. Eu não tenho como te devolver a inscrição. Porque você não faz o seguinte: entra na arena corre e na primeira estação o esqui, vê como está seu corpo, e aí se não der mesmo, sai da prova, devolve seu chip.” com um sorriso convencedor.

Uma mini faísca. É o que precisa para começar o incendio.

Voltei pro hotel a passos rápidos, me equipei e as 18 estava no meio de outras atletas me aquecendo para entrar na arena.

A largada para prova é dentro de um box, uma túnel fechado para abafar o barulho externo da arena, com musica e uma tela com imagens e contagem regressiva. Ali mulheres alinhadas, mulheres fortes, muitas de tranças espartanas, todas concentradas, sentia se uma energia incrível.

O formato do Hyrox é bem “gamificado” parece que estamos num jogo e somos avatares, desbloqueando fases. A voz robotizada sincronizada com a contagem do painel anuncia os dez segundos decrescentes. 3,2,1…GO!

1k Corrida

Duas voltas correndo. A minha estratégia de guerra era usar a corrida como recuperação e tentar a todo custo não elevar a minha frequência cardíaca, porque sabia que em muitas estações a frequência cardíaca dispararia sem possibilidade nenhuma de controle.

A entrada para a zona das estações deve ser feita sempre pelo pórtico correto e a saída, igual. É preciso prestar atenção porque por mais que nesse caso fossem apenas duas voltas, como as estações são em alturas diferentes as vezes dá duvida. “Ix, será que estou correndo a mais?”

Primeira estação SKIERG

Skierg é pra mim a queridinha, mesmo eu não tendo volume nela ultimamente, o fato de ter treinado tanto para a Vassaloppet na maquina, meu corpo aprendeu a otimizar e gerir o esforço. Aqui eu sabia que conseguiria deixar meu coração baixo. Sempre sem pressa focando no momento.

1k Corrida

Segunda estação SLED PUSH

São 102 k para levar para passear; pra lá e pra cá, para cá e para lá. Cinquenta metros total. Essa é uma das que eu treinei especifico. Poucas vezes, mas já deu para perceber que para mim no empurrar não há tanta dificuldade quanto no…

1k Corrida

Terceira estação SLED PULL

…puxar. São “só” 78 quilos no trenó puxado. O esforço leva rapidamente o coração lá para cima. Ainda tive que fazer algumas paradas para me recompor.

1k Corrida De volta às voltas. Aqui já pensando que mesmo com a gestão de esforço não será fácil chegar nos wall Balls. “Calma! Uma coisa de cada vez, foca na próxima,

Quarta estação BURPEES broad jumps 

Encosta o peito no chão, leva os pés às mãos, levanta e salta para frente com os dois pés juntos, e nesse processo de deitar de barriga, levantar e saltar ganhasse terreno para cumprir os oitenta metros de distância. What?!

Sim, nível de esforço cardíaco máximo (ou 9, considerando que o máximo dos máximos nos aguarda no final) Estação também que me deixa confortável, tendo tanto burpee de penalização no Curriculum nas spartan races hihihi.

Numa situação normal daria para reduzir bem o tempo, na minha atual era parar algumas boas vezes para respirar. Socorro. Aqui começaram a surgir mais duvidas de que “Será que devo mesmo seguir?” Levei bastante tempo para cumprir com a missão.

1k Corrida metade da prova já foi.

Quinta estação ROW

Mais mill metros de remada no row erg. Fácil manter gestão de esforço para quem está acostumado com cárdio.

1k Corrida

“Ai não ainda tem essa!” Por um erro de cálculo eu já tinha esquecido da:

Sexta estação FARMERS CARRY 

Duzentos metros carregando dois kettle bells de 16 k em cada mão. Na primeira volta ainda fui. Na segunda tive que parar algumas vezes para descansar o braço. “Pensa no botijão de gás!” Essa semana tive que trocar o do fogão lá de casa e subir as escadas até o primeiro andar me fez pensar em quanto importante os treinos de Hyrox e CrossFit são para o nosso dia dia. “Botijão de gás, botijão de gás, metros finais!”

1k Corrida

A arena está sempre lotada, o ambiente é de festa. Muita gente tem torcida. Musica, gritos, animação. Eu totalmente interiorizada focando na minha gestão de esforço segundo por segundo. Me sentia dentro de uma bolha, o ruído da realidade chegava abafado aos meus ouvidos. Lembrei de um amigo, que diz que eu sempre atraio perrengue, e talvez, a narrativa do dia seja essa; não seria a mesma coisa se não tivesse um grau de dificuldade inflacionado.

Sétima estação Sandbag Lunges

Dez quilos nas costas, passadas largas encostando joelho no chão e assim percorrem se cem metros. Esse consegui fazer sem paradas, e sem acreditar que mais uma corrida me levaria aos tão temidos.

1k Corrida

Oitava e última estação WALL BALLS

Tem um painel eletrónico que marca o numero de repetições; e sim se sua bunda não passou abaixo do seu joelho, a repetição não conta. A bola não encostou no alvo? Rá! Já fostes!

“Você tem que abaixar mais.” uma juíza que nem era a da minha linha gritava comigo. Eu seguia na minha bolha, meio anestesiada, agora mais por causa do esforço, com olhos fixos no alvo e no contador. Às vezes dois “no reps” quase que me faziam desatar no choro. Um juiz de outra linha, veio até mim.

“Olha, faltam só 26 repetições. Eu sei que seu coração está alto, mas parar não vai diminuir, termina logo com isso. Olha o alvo foca. Vai!” A energia dele era tanta, que até meu juiz de linha que não tinha nada de vibração resolveu me incentivar também.

Eu não consegui fazer mais de 12 repetições seguidas em nenhum momento. E me intriga o desafio da Redbull que seriam as 100 wall balls no break. Cem sem paradas. Confesso, que “o impossível” mexe bastante com meu interior 🙂

Uma hora e cinquenta finalizei a minha prova. Cruzei o pórtico sentei num canto sozinha e chorei. (pode não parecer, mas isso foi um momento bem feliz, ok?)

Num ambiente onde as pessoas correm por tempo, eu corri por sobrevivência. Amei a experiência e a vivência de encarar uma competição nova.

Quanto a ti Sr Hyrox, eu volto. Agora sem pressa nenhuma; ainda tenho promessa de doubles para encarar, e quem sabe, um dia, os tais cem. No break.

Danke Mechelen! Que memoria bonita e colorida!

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