Considerando que no próximo mês volto para os grandes desafios de corrida em estágio, competir o Xterra tri em Ilhabela uma semana depois do de Portugal não faria grande sentido.
“Ah espera! Tem trail run 21k!”
O Xterra aqui no Brasil é um festival de provas outdoor de organização que impressiona. Além do triatlo, existem outras provas de diferentes distâncias de trail run e até natação.
“Em Ilhabela, quintal de casa!”
A prova definiu a data para visita ao Brasil. Quinta feira, direto do aeroporto para Ilha. Quase que fomos pro destino errado, né Teté? (O que rendeu bons ataques de riso.)
Acordar cedo no sábado para chegar a tempo de retirar os kits, não foi tarefa difícil porque meu corpo estava no fuso horário de Portugal. Já minha torcida de plantão sofreu um bocado mais. Hihi

Não recuperada do estrago da prova do final de semana passado; recém saída “do coma” na terça-feira e sem saber porque meu pé esquerdo ficou tão dolorido. “Teria torcido?”
Até cogitei a trocar a distância de prova, mas confiei que a cabeça daria um jeito de contornar a situação.
“Será que o corpo irá responder?”
A base da prova é na praia do perequê. O visual, o mar calmo, as serras; a manhã estava linda. Ah Brasil!!!

Que delícia estar aqui com a melhor torcida e companhia!
Alinhei sob o pórtico, alguns bons minutos antes da largada. Eu comecei a valorizar a intensidade do povo brasileiro, depois que saí do país. Não existe gente como a nossa!

Ali na largada vendo aquelas mulheres bonitas, atletas felizes ao som animado da batida era possível sentir a vibração.
Comecei a conversar com algumas atletas que estavam perto de mim: “Ai que linda!”

Caiçaras que conheciam o percurso e já me passaram a dica “No quilometro quatro afunila, entramos na trilha que começa a subir. Melhor chegar lá bem posicionada.”
Essa estratégia me traz de volta ao plano tosco (-acelera tudo, e torce para cair depois da linha de chegada) algo que eu queria evitar porque uma vez com o coração lá em cima dificilmente voltará a baixar, mas não queria arriscar entrar na trilha na muvuca. Bora de plano tosco!
“Deseje boa prova para quem está ao seu lado, mesmo que você não conheça.” O speaker espalha a festa.
Abracei minhas novas amigas. Quanta energia! Fitei o pórtico, o céu, o dia que amanhecia. Meus olhos encheram d’água. Ali naquele momento consciente do instante presente, agradeci. Bora largar.
O teste do pé foi logo nos primeiros duzentos metros num sprint na areia. “So far, so good.”

Ainda no asfalto começando a subir:
“Pega a noiva!”
Dois amigos vinham brincando com tudo e com todos.
“Acho que estão falando com você!”
Eu aproveitava para acelerar.
A brincadeira me fez ainda mais feliz, o que eu faço sozinha em muitas das provas, aqui tenho companhia. Atletas e Staff brincando e interagindo o tempo inteiro.
Os quatro primeiros quilómetros foram rápidos. Entramos na trilha, numa subida íngreme, ali Ricardo outro simpático atleta passa a letra de toda trilha “Ainda sobe bastante!” Descreve o percurso com exatidão, e nos prepara psicologicamente para encarar o perrengue.
Entro na trilha do Parque que leva à Castelhanos; as inúmeras aventuras vividas aqui pipocam na minha mente.
“Bom diaaaa!!!” Na portaria do parque a animação também contagiava. Aproveitei para molhar a cabeça na água corrente de um “chuveiro” e segui correndo.
A luz da manhã atravessa por entre as folhas da mata atlântica, diferentemente do final de semana anterior eu me sinto muito bem. A temperatura está favorável. Ali cogito se por ter Ilhabela no meu DNA não seria tudo mais fácil. Me sinto parte daquela natureza.
Sigo subindo, agora com uma mãe e uma filha (presumo eu) e ficávamos em troca de posições. Elas passavam, eu passava.
Na descida a miúda entrou na trilha à frente, eu em seguida perguntei para que estava atrás:
“Quer passar?”
“Não, eu já não tenho esse colágeno todo.”
Eu segui na descida tentando acompanhar a garota, com o pouco colágeno que também me resta.
A trilha era daquelas maravilhosas de selva; cheia de zig zags, raízes e técnica.
Passo a portaria novamente e continuo acelerando.
“Olha a Luli aí de novo!”
Descida. Tá fácil!
Estava me divertindo, mal via a quilometragem passar.
Entrei no asfalto e no sentido contrário os atletas do triatlon que subiam de bike.
“Vai, Sabrina!” A primeira das mulheres vinha forte.
A segunda subida começava já no asfalto, e quando virou trilha era tão íngreme que foi preciso usar as quatro patas.
“Tá tudo bem?”
“Tenho caimbras. Ainda sobe muito?”
Cruzei com vários atletas com caimbras.
“Não sei.”
“É a primeira vez de vocês nesse percurso?”
“Soooobe!”
Eu até sabia que subia porque conheço bem a vista que nos leva até o pico do Baepi, mas a trilha que estávamos eu não conhecia.
“Tem uma parte de pedras, bem técnica que tem que tomar muito cuidado.”
Quando cheguei nesse trecho estava num ritmo bem mais acelerado que as pessoas na minha frente, mas como a trilha era estreita e super técnica fiquei com vergonha de sair atropelando e ultrapassar.
Sorte que uma das meninas desse bolo perguntou se eu queria passar.
“Se der, eu gostaria.”
E depois que passei todos, agradeci.
“Muito obrigada aqui é meu terreno, no asfalto vocês me passarão novamente.”
Um abastecimento estratégico onde eu já precisava urgentemente da
“Coca-cola! Nem acredito!”
Depois de dois copos cheios sigo subindo. Passo uma atleta.
“Sobe né?”
“Sim, vamos até a vista.”
“É lá que a gente fala com Deus.”
Me emocionei quando ela disse isso. Realmente. Lá a gente fala com Deus. Tá certo que me senti com Deus o percurso todo, mas lá na vista, ele parece mesmo responder.

Quando a mata abre e começa a subir mais, sei exatamente onde estou. Ali já estava começando a sentir sinais do plano tosco no meu corpo, o ritmo mais devagar não durou muito:
“Vamo, vamo, vamo.”
À distância eu escutava meu irmão gritando.

“Não acredito que eles subiram até aqui.”
Que ânimo essa torcida me deu!
“Agora é só descer!”
Depois da descida “ai, meu colágeno!” Passo por uma cachoeira.
“What?”

Sentia meu ritmo de prova super bem e imaginava que poderia estar bem posicionada, mas não entrar naquela água não era opção.
Tirei meu colete e me afundei. Que maravilha!

Nos últimos quilómetros que seriam planos, a previsão se concretizou; fui ultrapassada por algumas das que tinha deixado para trás. Ainda assim estava feliz com o ritmo e me sentia bem, com uma queda de velocidade mas não uma quebra.
Dois quilómetros antes da chegada faço uma curva e entro na praia d casa que passei minha infância; novamente meus olhos enchem de água tomados por emoção. Pipocam outras mil memórias num flash de pensamento. “Que saudades da minha avó!”

Na reta final da areia confirmo o que a largada já me ditou; meu pé tá bom!

Cruzo o pórtico de alma cheia, e colorida de verde e amarelo.
Primeira mulher na minha categoria!

Comemoro com novos amigos e a melhor torcida e apoio de sempre; obrigada Tom e Stella foi incrível partilhar essa vivência com vocês!
Obrigada treinador, pelos treinos e paciência com sua atleta rebelde. Hihihi Seguimos juntos 🤍 Love u


One Response
Estou anciosa por conhecer a tua ilha..bela♡ Adorei a descrição pormenorizada da empolgante prova♡
Seguimos sempre juntas, estou na torcida♡