A primeira vez que eu fui staff na Transrockies run foi em 2008.
Pra quem não conhece, a competição acontece no Colorado; são 200 k de trail run em seis estágios. Saindo de Buena Vista e terminando em Vail.
A prova percorre lindas trilhas inclusive passa pela famosa Continental Divide Trail, Hope pass e seus 3.840 m de altitude.
Foi em 2018 depois de tanto trabalhar no Checkpoint 2, no meio da prova, que percebemos o quanto os atletas precisavam de um abraço; o suporte emocional muitas vezes era mais importante do que qualquer outra coisa. A partir daí ficou oficializada a minha função; “professional bear hugger.” Abraço de urso!
Em 2020, pela primeira vez a competição não aconteceu por causa da pandemia, e em 2021 talvez ainda fosse muito cedo para as pessoas voltarem a abraçar.
“2022, it is!”
Abraçar nos Estados Unidos é uma conquista. Claro que existem pessoas que são naturalmente afetivas, mas culturalmente falando, os americanos e canadenses (a maioria dos atletas da prova) não são como os latinos.
A competição em estágio acaba por ser ideal, porque ao longo dos dias o abraço de urso torna se popular e contagiante.
Assim “promovida”, nesse ano não estaria mais ligada ao Checkpoint, poderia estar onde quisesse no percurso, dando abraços e incentivos aos atletas.
Como em 2009 eu competi, conheço bem o percurso e fica fácil decidir os pontos estratégicos de “sofrimento” onde o suporte seria mais bem vindo.
A quilometragem diária varia dos 20 e poucos até os 40 e poucos, tornando a logística de chegar ou sair do ponto que escolhesse, mais complicada; eu dependia sempre de caronas, fosse dos Check points ou do pessoal que marcava o percurso.
Minhas manhãs eram madrugadas para conseguir chegar onde fosse antes dos primeiros atletas.
Assim passaram os dias; entre abraços e treinos de corrida e caminhada em altitude.
Foi no quinto dia que não consegui carona. Eu queria estar perto do segundo Checkpoint.
“Estamos lotados, não temos como te levar.”
Nessas horas, Ryan, o diretor de percurso sempre me ajudava;
“Porque você não vai com o Checkpoint 1 e corre até onde quer estar? São 10 quilômetros!”
“Ótima ideia!” Mesmo porque, no quinto dia o trecho mais cênico da prova era mesmo essa perna, assim ainda poderia aproveitar umas horas sozinha e curtir a montanha.
As oito da manhã chegava com Checkpoint 1 no quilômetro 12 da prova. Agradeci a carona e segui meu rumo.
Eu entrei na trilha no momento em que os atletas estavam largando, e fazendo os cálculos por alto imaginei que os primeiros deveriam me alcançar antes de eu chegar onde queria estar.
O dia estava ensolarado mas a manhã ainda era fria. Segui a passos firmes a primeira longa subida logo após CP1. Um Singletrack lindíssimo no meio dos pinheiros.
Cheguei no topo, aproveitei as vistas e segui; desce num single sobe, desce… “Hum estou com quase 6 k, talvez seja melhor colocar o meu chapéu de urso porque os primeiros logo irão me alcançar!”
E assim vestida de urso correndo, sobe, desce, sobe e….
“Fod………..!!!!!!!!!!!!!!!!”
Eu não sou de palavrão, mas foi o que me saiu na hora, e ainda bem que saiu em baixo tom.
O Urso ali, tão aqui! Aqui na minha frente entretido com as flores ou frutinhas no campo verde. Para minha sorte virado para o outro lado que não me viu.
Na rajada de adrenalina fiz meia volta e sai correndo desesperada para o outro lado.
Nessa hora tudo passava pela minha cabeça; será que o sanduíche da minha mochila tem cheiro? Será que o urso vai vir atrás de mim? Celular não tem rede!? (Quanta inocência no meio da remota montanha achando que o celular ia funcionar!)
Corro quase uma milha de volta e encontro com quem? Sr e Sra Papai Noel?!!
“Feliz Natal!!!!!”
“Não! Não! Nããooooo! Eu vi um URSO!!!”
E com a Santa calma natalina, ou seria canadense;
“Ah, você viu um urso?”
“Não! Eu vi um URSOOO, ursoooo!”
Entendi que as proporções brasileiras desse encontro são completamente diferentes das americanas ou canadenses.
Steven e Stacey me acalmaram.
“Toma.” _ me dando uma buzina spray_ “Espere os primeiros e volte com calma, se vir novamente o urso toque a buzina, isso provavelmente ira assusta-lo.”
“Merry X-mas!”
Nesse momento passava o primeiro atleta.
“Nós avisaremos os atletas que tem um urso no percurso há uma milha daqui.”
Quando os atletas passaram por eles eu já estava novamente lá na frente, e quando esses atletas chegavam em mim, vestida de urso surgiam as risadas;
“Ah! Tô vendo o urso!”
Agora vai explicar!



One Response
E que urso lindo com um abraço bem apertado carregado de carinho!!!❤️❤️❤️