Campeonato Mundial Xterra Molveno

“Mana! Acabei de me dar conta que sua prova é sábado e não domingo! Sábado, dia 27! Niver do meu pai.”

Eu tava extremamente tensa véspera de prova. Nadar numa água gélida e encarar uma prova tão fria me deixou muito ansiosa. A mensagem da Si chegou na hora que eu precisava de uma força para encarar o que estava por vir. Mindset ajustado: vou competir homenageando meu xará.

A mesa sempre estava cheia de amigos. Tio Luciano adorava a bagunça.
Eu lembro me um desses almoços em Itu, que os meninos entraram numa de competir quem provava a pimenta mais forte. Separaram as pimentas por grau de “picância” e começaram. O último estágio era uma que tinha uma caveira no rótulo.

Tio Luciano nem exitou colocou um bocado no pão e engoliu. Eu me lembro que até escorreu uma lágrima do olho, mas ele não deu o braço a torcer, claro! E o vencedor do troféu tolerância à pimenta foi para o Italiano da Calábria. (A terra de onde inventaram a pimenta calabresa).

Fui com o Tom para linha de largada.  Alguns atletas já “aquecendo” na água. Dez graus e chovendo, esse era o panorama do dia!

Na Largada das toucas amarelas, as mulheres de grupos de idade, encontrei com a Daiane:

“Bora se divertir, Luli!” mais várias meninas Brasileiras alinhadas. Brasil se junta e vira festa.

Os primeiros três segundos de mergulho, a hora que a água entra pelo neoprene, eu pensei em desistir. Na elite uma menina já tinha saído com hipotermia. Eu achava que seria a próxima. Pensei no tio Luciano e segui nadando.

A cor da água cristalina e nadar naquela imensidão de um azul reluzente era incrível. Aos poucos meu corpo foi entendendo que teríamos que estar ali mais meia hora pelo menos.

Segue as bóias, sai na praia.

“Vamo Luciana!”

Escuta a torcida do irmão, volta correndo e pula na água de novo. Dezessete graus. Se estivesse doze como na véspera a natação teria sido encurtada, mas não, a água estava “quente”; percurso completo.

Minha transição foi tão lenta e atrapalhada, com as mãos congeladas não conseguia fazer grande coisa.

“Vamu, vamu, vamu!”

Peguei a bike e saí em disparada, para ver se aquecia meu corpo.

Num ritmo acelerado ainda no plano dando a volta ao lago. Até ali ainda não tinha relacionado o fato de que estava na Itália; a Itália do tio Luciano. Segui com os olhos mareados.

A subida começou! E que subida! 32k com acumulado de 1300 em duas voltas de 16k.

Chegava numa parte que era impossível pedalar; o barro grudava na roda de tal maneira que colava na bike e a roda travava. Era preciso de tempos em tempos limpar com a mão tirar o tijolo de barro e tentar seguir.

Até pensei em filmar, porque ninguém que não estivesse ali poderia entender a dimensão do perrengue, mas era impossível porque a lama tomaria conta de tudo. Lembrei das corridas de aventura.

Ao meu lado havia conversa e entre ajuda. eu estava tão no meu “pain cave” que nem conversar estava conseguindo. Aí entrei na viagem de pensar no sofrimento. Eu não estava me divertindo, eu estava sofrendo. Porque o sofrimento pode ser divertido?

Depois de muito tempo cheguei no topo. “It’s all fun from here!”

E efetivamente era; a primeira parte do downhill era uma pista construída e planejada; um flow digno de Canadá.

Curvas, saltos, zig zags fluido de solo liso, aqui a técnica era só na dança. Já outras partes onde o solo era bem técnico não só pelas raízes e pedras presentes mas pelas condições em que a pista se apresentava muita lama. A bike dava umas rabeadas “Endireita e não freia!” Amei! O downhill foi o highlight da competição pra mim.

Chegando na cidade ainda tinha um escadão para descer e curvas numa delas tinha a bandeira do Brasil pendurada na varanda. Me fez feliz! Os mundiais do Xterra tem sempre muitos brasileiros competindo.

Ali no gramado da base vejo que estou quase na rampa do salto. A rampa que não testei. Será que vou pelo chicken line?

“Vaiiiii Lucianaaaa!”

Quando ouvi meu irmão segui para rampa e voei no salto! Ufa, boa aterrissagem!

Sinto a energia da chegada, do speaker, do som, da torcida e me preparo para encarar tudo que acabei de fazer, novamente.

Demorei uma hora e quarenta para fazer a primeira volta. A segunda já demorei muito mais. O cansaço acumulado e o barro que aumentava a cada passagem de atleta.

A segunda transição foi muito mais rápida: “Não esquece do dorsal! Deixa tudo na caixa!” O Tom gritava do lado de fora. “Vamo, Vamo, Vamo!”

Saí correndo.

O percurso da corrida era um misto de asfalto, gravilha e single técnico. Passava por uma cachoeira subia e depois descia como o da bike.

Dez em duas voltas de cinco.

Na primeira volta quando pensava na chegada já tinha vontade de chorar. Fui vendo o tempo de cada quilometro para tentar manter.

Passo pela festa de novo e bora para mais uma volta. A corrida foi bem consistente, segui o ritmo que imprimi. Lento.

O Mundial do Xterra não estava nos meus planos e nem calendário. Entrou no susto de uma classificação inesperada, que por coincidência do destino a data era um buraco no calendário entre duas viagens Flower People X.

“Topa ir para Itália comigo para competir o Xterra?”

Ter o Tom junto fez toda diferença.

Nesse cenário; sem treino específico aliado a 307 k nas pernas de cicloviagem para chegar à base da prova, sabia que competir seria uma questão pura de sobreviver. Seria uma comemoração em poder estar ali entre os melhores do mundo, sem treino para isso.

Na segunda volta passo uma mulher com uma camisa com uma caveira nas costas.

“Eu estou assim!”

“Assim como?” Pergunta ela; “Morta ou como uma pirata?”

“Morta!”

“Mas o símbolo é pirata.” E continuou:

“Eu não consigo correr em downhills tenho o joelho ruim.”

Eu segui.

É realmente eu poderia ser uma pirata, afinal estava ali lutando rumo a chegada. Tudo é questão de interpretação.

Quando na divagação, lembrei da pimenta; aquela, a mais forte de todas, que tinha uma caveira no rótulo.

De novo. Quando faltava um quilometro para chegada cruzei com um homem que vinha no sentido contrário com a caveira pirata no peito.

Foi como uma mensagem “Falta um quilometro!”

Pensei na Simone, no tio Luciano, pensei na Lu, na tia Isabel.

Pensei no mundial de triatlon, no meu de cross, e no da Si de estrada, daqui alguns dias.

Quando estava chegando, ia derretendo antes do pórtico, quando escuto no microfone “Vamo, Vamo, Vamo! e os barulhos de pássaro que só o Tom sabe fazer. Ri, me recompus por uns instantes, mas assim que cruzei o pórtico, começa a tocar Rocket man, Elton John. Eu caí no choro que nem criança, num misto de emoção, cansaço, sofrimento e felicidade.

Seis horas e treze minutos competindo, no país dele, muito honrada em ter conhecido, o tio Luciano.

***

10o lugar no meu AG

Obrigada Tom, pela divertida viagem de bike de 509k para chegar e sair de Molveno, por todo apoio mecânico, torcida, vídeo e partilha!

Obrigada Tri Clube Penafiel por ter adotado uma brasileira numa equipe portuguesa, e por terem trazido meu neopreno para que eu pudesse sobreviver a água gelada. Hihihi

Si, pela partilha de um dia tão especial, e amizade de uma vida!

Savoldelli, em Bergamo que nos salvou com o eixo da bike, foram tão simpáticos e generosos.

Last but not least, Amor por ajustar os treinos mesmo quando não tem jeito e nem tempo (haha) pelo apoio incondicional e pelas asas para voar.

Com amor

Luli

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4 Responses

    1. Que conexão incrível entre as duas histórias ♡
      Realmente dá que pensar como o universo manda sinais, e tu sempre atenta, consegues interligar tudo em prol da felicidade ♡ ( eu quero ser como tu, com essa vida♡)
      As tuas ações têm um forte impacto no mundo♡
      Obrigada 🥰🥰🥰🥰

  1. Mana!! Mais uma vez li seu relato e fui tomada pela emoção🥺🩷! Que texto cheio de vida! Senti meu pai ali com você em cada momento!! No frio da água, na força da subida, na coragem do salto! Ele sempre transformava qualquer desafio em festa, e você traduziu isso na prova. Obrigada por essa homenagem tão linda, que vai além da competição e guarda a essência dele: Intensidade, alegria e coragem!
    Te amo, mana 🩷🌟 Mil vezes parabéns pela prova, pela sua intensidade, alegria e também coragem!!!

  2. Acho que foi dos melhores textos que já li teus!!
    Fantástica homenagem ao tio Luciano!! 🌟
    Parabéns meu amor ❤️ sempre a surpreender!!
    Gosto gosto 💖

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