Me despedi da minha vista. Tomei café da manhã com Jeff, agradeci as remadas e a estadia. Segui Viagem.

Resolvi ir pelo meu caminho, não segui o track; eu é que sei. No caminho passei novamente por Porto Montenegro, um lugar super luxuoso, com apartamentos, restaurantes e lojas de grife.

Como esse mundo tem contrastes!

Aproveitei para tomar mais um cafe da manhã que não apenas dois ovos cozidos. Sentei num desses restaurantes descolados e aproveitei a manhã. Segui com calma passeando.
“Não é permitido pedalar aqui!” veio o segurança me tirar do quarteirão rico do país.
Eu tinha três dias para chegar a Dubrovnik.

Para sair do país voltei pelo caminho sentido Herceg Novi.

Segui com calma, e dessa vez peguei a balsa cortando o pedal da baía pela metade.

Quando cheguei em Herceg Novi procurei um restaurante para comer e decidir o que faria no resto do dia. Pedi uma pizza que estava deliciosa. No restaurante comecei a analisar o percurso de volta e a opção que tinha escolhido tinha uma ascensão de quase mil metros, em pouco mais de trinta quilómetros.
“Chat, vale a pena mesmo ir pela Bósnia!?” A opção de ir por uma estrada bonita e muito menos movimentada me fez manter o plano, mas considerando a altimetria resolvi deixar o ataque para o dia seguinte.
Fiquei no mesmo hotel da vinda, e aproveitei para recuperar a minha garrafinha, que estava cheiinha ainda me esperando.
O dia seguinte acordou nublado com previsão de chuviscos, o primeiro de todos esses dias que estou aqui.

Quebrei a cabeça para achar o track porque tinha traçado outro tentando cortar caminho. Nada feito.
Quando comecei a subir um senhor avisa:
“Se você esta indo para o castelo, está fechado!”
“Obrigada, mas acho que estou indo para além do Castelo.” Bati um papo com o inglês que andava na velocidade que eu pedalava a íngreme subida. Quando a inclinação abrandou me despedi e segui viagem.

A vista da baia de Montenegro ficava para trás, e para frente; as montanhas. No relógio a altimetria avisava que o dia ia ser longo.
A estrada tinha um certo movimento sim, mas as montanhas eram lindas.
Quando avistei um ,mercadinho no meio do nada, não tive dúvidas, comprei a coca cola para garantir a viagem. Depois passei por uma igreja perdida também no meio do ermo.

Continuo a subir, passa um carro bem devagar do meu lado.
“Está tudo bem? Precisa de ajuda? Segura no carro que eu te levo.”
“Não, muito obrigada. Estou bem.”
O carro vai embora. Ando um pouco, mais para frente, vejo ele me esperando passar. Um senhor desce do carro.
Um russo de sorriso largo : “Eu sempre passo por aqui e sempre me disponho a ajudar ciclistas. Essa subida é muito íngreme e muito longa. Posso por sua bike no carro e te deixo lá em cima.”
Agradeci novamente o gesto e disse que eu tinha o dia inteiro para fazer a subida.
“Você está muito em forma.” Seguiu viagem e me deixou com sorriso, pelo simples fato de ter bondade no mundo.

Fui sempre dosando esforço, não que eu tivesse muita força de sobra depois de tantos dias consecutivos de endurance. Por vezes foi preciso parar, comer uns pistaches e tomar o resto de coca.

Foram mais de quatro horas subindo.

Para chegar mortinha lá em cima.

Sair de Montenegro, com uma despedida clássica com gatinho. Que tanto marcaram minha viagem por essas bandas. O premio da conquista da subida foi um carimbo no passaporte; Bósnia!

Quando comecei a descer, pensei que essa tal de chat sabe mesmo das coisas. Que estrada linda!
Hora de aproveitar a o vento na cara.


Nesses lindos campos verdes passei pela casa de um apicultor, entrei decidida a comprar mel, mas não tinha dinheiro suficiente.
Depois passei por uma pixação que me fez lembrar o Rui e as garotas quando eram pequeninas, que aprenderam desde cedo o amor em várias línguas.

Finalmente depois de longas horas em cima da bike cheguei ao destino do dia, num país diferente.

E pela primeira vez também em tantos dias me deparei com uma pequena ciclopista. Sim, era curtinha, mas pelo menos existia.

Cheguei no hotel que eu tinha reservado antes de cruzar a fronteira e ficar sem internet. Felizmente o restaurante estava aberto e deu para eu almoçar quase num horário de jantar. Adivinha? Isso mesmo, o prato que eu mais comi nessa viagem.

Depois ainda com luz fui dar uma voltinha a pé pela cidade.

Um pedacinho da Bósnia foi conquistado.

Amanhã é dia de voltar para Dubrovnik.


2 Responses
Ainda hoje eu e as meninas trocamos essas frases de amor poliglotas que algumas aprendemos contigo. 💗
E com a tua viagem enriquece-mos um pouco mais o nosso vocabulário! 🥰
Relato incrível de uma viagem fantástica…revejo-me a pedalar aí em cada foto que publicas.
Bom regresso 🙏❤️
Cada vez que eu ouso duvidar se consigo ir a algum lado sozinha, tenho mesmo que me lembrar de ti, que atravessas numa profunda calma um mundo “ repleto de contrastes” 💕🙏🏻👌🏻