Eu sei que já estamos no terceiro dia, mas foi a partir do segundo que deixamos de conseguir fazer contas.
Ligamos o gps de manhã, nosso dia começa no quilômetro zero, mas já temos “estrada”! O racebook marca as distâncias acumuladas que por sua vez não batem com o racemap e tracker.
Subtrai a quilometragem do racebook com o que temos marcado no relógio…
“Que quilômetros estamos mesmo?”
Mantendo o foco; desencana e rema! Hoje seria um dia sem vento, dia de recuperar as horas que não cumprimos na véspera. “Vai ser até as dez da noite.”
Com poucos quilômetros, antes de uma ponte de pequeno vilarejo , passamos pela primeira checagem de equipamentos da prova; cobertor de emergência, telefone, apito, bateria. Ali, estavam o organizador e a Léa, staff da prova, junto com Moab que já nos abasteceu de sanduíches.
Nós já éramos amigas íntimas do Loire e conseguíamos fazer a leitura de sua correnteza. As diretrizes se manifestam de várias formas; os desenhos de pedras e areias no fundo do rio, as pequenas ondulações que texturizam a superfície da água de forma diferente, as pequenas espumas ou folhas que navegam rumo ao mar.
São detalhes que passam desapercebidos aos olhos dos menos atentos.
Para nós, a diferença se tornou nítida quando a prancha alinhava com a correnteza; era como um encaixe perfeito; dava pra sentir na remada. Nesses momentos de “clic” a gente fluía tão em
harmonia com o Loire que nos tornávamos um. Pode parecer loucura da minha cabeça, ou já alucinações do esforço, mas muitas vezes essa sensação de unidade tomou conta de mim.
Ali estávamos no “tubo do Mário” Tudo fluía!
Assim; nosso vocabulário próprio foi se enriquecendo; o fundo do rio que apontava a direção eram os “azulejos”, as bolinhas de espuma eram os “cuspezinhos”, e correnteza do rio batizamos de Mário.
“Alinha com os azulejos.”
“Segue o Mário, segue o Mário!”
Foi assim, no tubo do Mário, que a diversão rendeu loucamente no terceiro dia; o tempo todo estávamos com o Checo, que remava solo em sup, e que, diferentemente de nós, não seguia a correnteza. Esse dia estava numa prancha inflável e dessa forma fazia mais esforço ao remar. Volta e meia quando parávamos na margem para abastecer, ou para qualquer outra função ele se distanciava, era só a gente remar e entrar no “Mário” que chegávamos nele de novo.
Não falava uma palavra de inglês, quando queria saber alguma coisa perguntava em checo e a gente respondia em português.
Ele foi a diversão do nosso dia porque tornou nosso objetivo, já nós, imaginamos que deveríamos ser o pesadelo dele. “Oh não lá vem as duas de novo.”
Foi um dia de baixíssimo rio, que encalhamos várias vezes.
“Corta bolo!” _Quando a nossa quilha da cozinha ia raspar o banco de areia.
“Marcha soldado, marcha soldado.” _Instrução para descer da prancha e empurrar. Que, por sinal, era uma parte deliciosa do dia porque a areia de pedrinhas do fundo do rio massageavam nossos pés massacrados.
Às vezes não dava tempo pro aviso prévio e as duas caiam estateladas. Mais cicatrizes de guerra.
Na primeira portagem do dia ,que era curta, o Moab esperava a gente com pain au chocolat. Já entramos de volta com a prancha na água e comemos muito rápido a delícia francesa.
A partir do terceiro dia também, o corpo já começa a reclamar muito mais de tudo. A digestão já fica mais complicada, as comidas que caiam bem já passam a não ser mais processadas.
“Nossa tô enjoada.”
Imagina o coitado do corpo que tá trabalhando ininterruptamente e tem que mandar sangue lá para digerir aquilo que estamos comendo ao remar! Nossa estratégia de não perder tempo envolvia habilidades de morder o sanduíche na hora que a gente trocava a mão e lado da remada.
O croissant teve um efeito laxativo imediato. E adivinhem? Depois da nossa parada emergencial quem a gente alcança? Quem? Quem? O Checo.
Mensagem do Moab “Entrem a direita num braço da ilha antes da próxima portagem.”
Tinham muitas ilhas no meio do rio e grandes diferenças na escolha do lado; correntes, volume de água, distância.
O Checo pegou a esquerda! Pela vigésima nona vez ultrapassamos ele na portagem seguinte.
Já no quilômetro 304 da prova passamos por uma portagem rápida num momento já crítico do final do dia em que precisávamos comer. Sem nada quente pronto, fizemos a portagem e seguimos.
Alinhamos com o Moab que deveria andar mais pra frente e preparar um noodles (“nudes” no vocabulário FP) Já eram 19:30 da noite, se quiséssemos remar até as dez teríamos que abastecer nosso corpo.
Num buraquinho da margem ele passa os copos quentes; “Joga!” Sentadas em cima da prancha uma come e a outra rema. “Deixa eu dar mais umas garfadas.”
Alinhar o acampamento do dia foi bem difícil porque a gente queria remar até as dez mas precisávamos da certeza de que teríamos margem para sair. Nem sempre as margens eram acessíveis, às vezes eram privadas, muitas outras eram selvagens.
“Camp!” O Checo que remava apressado e apontava para frente, enquanto eu olhava no Google e tentava ver se nosso carro de apoio chegava onde estávamos.
“Deixa o Checo ir! Olha esse por do sol que maravilhoso!”
Outro momento em que nossas cores e as cores do céu se unificaram. “Que dia sensacional!”
Foi o nosso mais longo, passamos equipes, e aí já começavam as desistências. Terceiro dia de guerra foi um divisor de águas.
Paramos às 10:19 numa margem remota e tivemos ainda que montar acampamento. “Misericórdia!”



4 Responses
Misericórdia!!! Hahahahaha, a gente nem tinha forças para ajudar, mas ajudamos nosso apoio que fez de tudo para ficarmos bem. Mais um dia! Te amo Mana
DEMAIS!!! 🤩
Que máximo!!!
Adorando os posts cheios de detalhes!!!
Parabéns guerreiras!