Riaño 1a Etapa (Fraca + Assando)

Saindo de Oseja de Sajambre, percorrendo as montanhas a primeira etapa nos leva até Cain de Valdeón, o coração dos Picos da Europa.


O primeiro dia de prova é o mais longo e o com mais altimetria. A organização anuncia a altimetria 2300+, o garmim discorda.

A previsão para os primeiros atletas é de 5h40 de prova. What?

***

Poderia estar recuperada da virose de dois dias atrás que me fez perder 2 quilos na última semana.

Poderia.

No meio da noite a barriga se manifestou. No café da manhã forcei comer, mas já deixei todo meu carbo hidrato no acampamento mesmo.


Peguei o onibus e no caminho fui tentando me hidratar na viagem. Uma manhã bonita, o sol dançava com a névoa, as montanhas às vezes mostravam seu valor.


A largada estava ali toda bonita embrenhada na montanha. Ah, os picos da Europa! Dos lugares magestosos desse mundo.

Larguei já com os trekking poles abertos porque a prova já começava a subir.

No primeiro quilometro afunilou um pouco e depois que abriu tive impressão que a turma da frente seguiu.

Eu fiquei com uns quatro gatos pingados e olhei pra trás esperando o resto. Aí pensei na prova de trail que fiz em Valença e Tui na divisa de Portugal, onde só tinham espanhóis competindo e eu fui…

Seria eu a última!?

Mas convinhamos, eu estou num ritmo ok. Não estou socando a bota mas também não estou andando.

Segui no mesmo ritmo de três amigos mosqueteiros; eu passava eles passavam.

Tentei colocar uma manga desidratada na boca sem mastigar.

“Não é na boca que o corpo já começa absorver os carbo hidratos? Quem sabe eu consiga enganar minha barriga.”

Que a essa altura já estava super inchada. Além da barriga também era preciso enganar a cabeça, porque o corpo gritava alto muitos sinais de alerta.

“Olha o vilarejo, que lindo.”

Resolvi parar para tirar uma foto e molhar a cabeça. O calor do dia já começava a dar pontapés.

Dois que vinham atrás brincaram comigo perguntando se eu estava molhando as flores.

Pouco mais à frente passamos pela organização, e os tais dois de trás foram muito brincalhões com o staff.

Oh oh!

Mais à frente olho para trás e os vejo sem dorsais.

“Eu sou a ultima?!”

“Tranquila!”

Tranquila?! Penso comigo mesmo. Pqp! Porqueeee?! Porque que eu fui cruzar a fronteira? Esses #fiasdaput4 enrolam a língua pra falar e correm tão rápido quanto falam. Misericórdia! Ainda num dia em que meu corpo já não está respondendo.

Lembrei da Brasil Ride, quando eu e a Dri fizemos de tandem éramos as últimas e tínhamos que lutar contra o psicológico para fugir do barulho da moto. Aqui meus dois “novos amigos” não paravam de falar.

Eu tentando abstrair.

Mais pra frente em um bosque passei um corredor e deixei de ser a lanterna.

“Adíos brasileña.”

Acho que adíos tava mais para um até daqui a pouco.

No quilometro 8 no ponto de abastecimento tinha coca cola, algo que poderia me salvar. Bebi bastante e molhei mais a cabeça para poder continuar.

Os seguintes dez quilómetros foram uma briga incessante da minha cabeça com meu corpo. “São tantos anos de competição e a desistência que tinha no vinha da corrida de aventura.”

Estamos falando de mais de década atrás. Todos os perrengues e adversidades foram sempre só obstáculos. Tanto superado.

Do outro lado, o avesso, quase que ouvia a voz do meu pai.


Cheguei no abastecimento do km 19 entre a cruz e a espada e só de pensar em ter que parar a prova chorava que nem criança.

Os três mosqueteiros estavam ali, um deles decidiu parar estava também com problemas de barriga.

“Pensa que amanhã ainda tem prova, não castigue seu corpo.”

Com toda a tranquilidade e aceitação do mundo.

Mas eu, com o coração tão apertado resolvi seguir.

“Vamos com a gente.” Disseram os outros dois.

Tomei mas um pouco de coca cola misturada com água, me acalmei e decidi que iria seguir.

Saí na frente e não daria mais volta. Ali era metade da prova. Talvez ainda tardasse mais umas cinco horas para chegar?

Não demorou muito os dois me passaram ritmados com destino a montanha. Eu, caí no abismo da fraqueza de corpo e alma.

No quilometro 23 havia um abastecimento extra de água. Ali eu cheguei e chorei tudo de novo.

“Por mais que me doa, não vou seguir.”

Existe mais coragem na decisão de se retirar do que o continuar, ainda mais para gente, que tem na bagagem tanto perrengue e história das boas.

É preciso entender onde estão os limites do corpo. Isso não é e nem será fácil; existe aqui uma faixa de Gaza.

Eu precisei de bons minutos de introspecção para conseguir virar a chave.

Aos poucos, no carro da organização, seguindo a estrada mais bonita dos picos da Europa eu percebi que seria uma grande injustiça da minha parte valorizar tanto o “fracasso”.

Quando cheguei em Cain o coração dos Picos, e entrei na água do rio, tive mais certeza ainda.

A consciência virou agradecimento, e dessa vez, o choro de criança fazia sentido.

Estou de volta, de alma. O corpo, bem…logo vê-se!

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5 Responses

  1. Nunca será um desistir, mas sim um enorme sim tudo o que faz sentido♡
    Sigo junta, sempre!!♡🌸

  2. Nunca será um desistir, mas sim um enorme sim tudo o que faz sentido♡
    Sigo junta, sempre!!♡🌸

  3. Parabéns ! aceitar seu limite é maturidade é se conhecer é viver o momento!
    É comemorar a vida!!!
    Muito orgulho bjs

  4. Parabéns Luli, resiliência e antes de tudo equilíbrio e respeito ao corpo! 👏🏽👏🏽

  5. luliiiii! vc respeitou seu corpo. vc tava dodoi! boraaaaa pra cima. se hidrate! se alimente ! amanhã tem mais. Bjs

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