Nós sabíamos que a conquista da Espanha iria ser difícil, mas não foi na nossa subida de cinco horas cruzando os Pirineus que nós fomos abatidas.
Após a conquista do cume começou a chover.
Foi numa descida de curvas que resolvi olhar pra atrás para checar se a capa de chuva estava bem presa. Em milésimos de segundo no que virei para atrás a bike saiu do asfalto em alta velocidade.
Não existia acostamento era apenas um dente alto, gramado e mato. Sem conseguir frear direito já me preparei para o que vinha; aquele capote!
Bati com a cabeça e numa cambalhota virei. A Gordinha e toda sua carga caiu logo atrás de mim.
Sentindo todo o pulsar do corpo, ainda sentada no chão, tentei me tranquilizar e respirar. Sentia o dedão da mão doendo, olhei pra gordinha, estava segura de que não tínhamos tido grandes estragos.
Minha pressão começou a baixar.
“Respira Luciana, respira. Não vai desmaiar bem aqui ao lado da estrada. Respiraaaaa… ah não!”
Percebendo que eu ia, deitei.
Eu digo que a sensação de desmaio seria sensacional se não fosse um desmaio.
Eu fiquei ali curtindo a nova dimensão e fazendo uso de toda brisa de ar que me brindava.
Quando escuto um chamado do planeta azul: “Está tudo bem, você está descansando? Ou caiu?”
Com a voz mais mole do mundo devo ter respondido que estava tudo bem, mas eu ainda não conseguia sequer abrir os olhos.
O casal se aproximou e a Sra ligou para emergência: “Sim ela está caída. Que idade? Uns trinta anos mais ou menos.”
Quando ouvi minha idade ressuscitei.
Enquanto isso outra senhora me fazia uma série perguntas; meu nome, se eu me lembrava da queda, se eu tomo medicação.
Quem, como eu, já fez o curso de primeiros socorros sabe bem.
Ainda deitada; “Posso responder daqui a pouco? Eu preciso de ar.”
“Nós vamos levantar as suas pernas, você está muito branca.”
Enquanto eles conversavam descobri que uma delas era enfermeira, a outra dizia: “Que sorte que ela tem.”
Engraçado que nesse minuto me veio à cabeça um momento de viagem que eu tive com a Dri que a gente acha um mecânico, quando precisávamos de um, no meio de uma vila deserta que nem moradores tinha.
“Qual é a chance?”
Se elas tivessem me feito essa pergunta, eu responderia; “Todas!”
“A sua cor tá melhorando, mas nós temos que esperar a ambulância porque a sua queda foi feia.”
“Vai ficar tudo bem, vai ver que será apenas uma história pra contar.”
Chegou a ambulância. Chegou a escolta.
A enfermeira explicou tudo para a socorrista. Me colocaram pescoceira e me removeram em maca para ambulancia.
Nós temos que te levar até o hospital em Pamplona. A escolta vai levar a bici.
No meio do caminho ambulância parou; a escolta não poderia seguir com a bicicleta até Pamplona, pois era muito longe.
Felizmente a enfermeira tinha toda boa vontade do mundo e conseguiu arranjar um táxi para levar a Gordinha até o hospital; assim eu não precisaria voltar ao local do acidente para busca la.
No hospital eu era a peregrina que tinha caído de bike e não tinha acompanhantes.
“Mas está sozinha?”
Como eu tinha batido a cabeça e não queria passar muito tempo ali achei melhor desconsiderar a Gordinha na resposta.
Eu passei a tarde inteira sendo passeada de maca pelo hospital. Me fizeram todos os testes possíveis e inimagináveis.
Ri da situação idiota de estar ali, principalmente na hora que quis ir ao banheiro e não me deixaram levantar. Gargalhei sozinha. Que situação!
O taxista trouxe a Gordinha e a deixou na recepção do hospital.
“Como ela está? Melhor do que eu?” Ele riu.
Os resultados dos exames chegaram, como eu imaginava; uma bela lixada no ligamento do dedão e o resto todo intacto.
“Quando voltar pra Portugal vá ao seu médico para ver como está e pode ser feita a recuperação.”
Ela me colocou uma tala no dedo e me enfaixou o braço.
Agradeci a médica, mais de uma vez, e também toda e qualquer pessoa que me socorreu ou examinou. Todos foram, além de profissionais, muito carinhosos.
Eu nunca precisei dessas encruzilhadas para valorizar a vida e agradecer o quão sortudos somos de habitar esse planeta, faço isso todos os dias. Mas hoje reforcei.
Peguei a Gordinha, que também só tinha a cesta amassada e, tratei de agradecer, afinal, como disse a enfermeira; isso foi apenas mais uma boa história para contar!


3 Responses
Admiro-te com todas as minhas forças.
Tiro o chapéu, faço vénia, ergo as mãos em sinal de gratidão e engulo todas as lições de vida que dás.
Que a vida dá.
30 anos??a mulher está doida??!! Tu tens 150 anos de sabedoria, 20 de juventude e 4 anos de criança. 30 nunca.
Sozinha? Tu levas uma multidão contigo ♡ Te amo♡
A Lurdes é uma delicia, né mana?
Olha quanta coisa linda e verdadeira ela escreveu?
Me emocionei!!!
No meu caso como nos conhecemos muito bem nessas viagens e não sou tão romântica a única coisa que consegui falar foi: vamos parar de mimi e sobe na gordinha e engole o choro😂😂😂😂
Isso que dar Nós sermos da corrida de aventura, se não tem osso para fira está otemaaaa… hahahah
Mana , você é demais!!! Obrigada por contar tantas coisas legais e nos levar para uma viagem tão maravilhosa.
Te amo mais que pão de ló😂😂😂😂💗💗💗
O melhor de tudo é poder ver os comentários de vcs filhotas DRI e Lurdes …
Eu amo vcs três mais do que 1000 pães de ló…..😊😂💓💓💓