fotos Moab Felipe
“Teve tempo de ir ao banheiro? Então você teve tempo de me ligar!”
Quando minha mãe não ligava pra meu avô, ele mandava essa.
Aqui na Loire 725, todo dia eu pensava nisso; “Não! Não tivemos nem tempo de ir ao banheiro! Imagina então fazer o resto.
Remar, dormir e remar.
As únicas mensagens que a gente via no Whatssap eram as do Moab, que tinham até um toque diferente para saber quando realmente tínha que tirar a mão do remo para ver o celular.
“Moab, só mande mensagens extremamente necessárias.” Não adiantava mandar também mensagens de voz porque o celular ficava molhado e não dava para ouvir.
Algumas vezes ainda apareciam umas mensagens da torcida de plantão, “intrusas” na tela.
O quarto dia tinha mais uma barreira horária, na cidade de Orleans. Aí já estávamos menos preocupadas porque apesar de andarmos com a turma do fundão da prova não éramos nenhuma ovelha desgarrada do rebanho.
Foram mais de 5 horas de remo até conseguir encontrar com o Moab, já estávamos secas de tudo, sem agua, sem comida e com fome.
“Nudes, precisamos de Nudes!” Felizmente ele conseguiu deixar o macarrão pronto às margens do rio em Orleans, uma cidade grande de apoio mais complicado.
A parada teve 16 minutos. A nossa maneira de controlar o nosso pace era pelo relógio, que apitava quilômetro a quilômetro. Assim quando o relógio sinalizava eu olhava quantos minutos tínhamos virado e fazíamos os cálculos; se virássemos o quilômetro em 23 minutos era porque usamos mais ou menos 16 na parada. Quando “perdíamos” mais tempo do que deveríamos focávamos em remar os quilômetros seguintes para recuperar. “Quer tirar o casaco? Espera virar o próximo quilômetro.”
A Dri continuava com muita dor na mão por causa da síndrome do Carpo e a noite tinha sido péssima.
Depois da parada estávamos num marasmo do rio. Tinham horas em que o rio era largo com paisagem igual que dava sono.
Numa das trocas de mensagens com o Moab entra a mensagem intrusa; “Acelera que o Aguirre tá vindo aí!” Mensagem do meu pai que acompanhava atentamente a gente no track on-line, e não era só ele ainda bem! (Outro capítulo ainda por vir)
“Aguirre, quem é Aguirre?”
“Não sei, mas acelera que ele está vindo aí!”
Obrigada paiê, o sono foi embora.
Nós, em nenhum momento pensamos em classificação, queríamos sobreviver, mas que deu uma animada no nosso dia, ah isso deu!
Com 77 k de remo tínhamos mais uma portagem obrigatória, aproveitamos para tomar sopa e comer já com muitas horas de prova, mas ainda quilômetros por percorrer.
Ali encostamos em dois caiaques que entraram de volta a água pouco tempo antes de nós.
Os quilômetros seguintes foram duríssimos porque entrou vento contra, e com ele, uma tempestade. A chuva não durou nem cinco minutos talvez, mas foi o suficiente para me deixar congelada.
O louco da dor de frio que me dava era que ao contrair a musculatura das costas involuntariamente doía tudo! Era como se as costas todas quisessem dar câimbra.
Com 94 quilômetros encostamos na margem comemos uma tapioca e fizemos planos da parada para dormir. “Hoje precisamos de um hotel.”
Blois, uma cidade grande, onde tinha o segundo ponto de controle seria nossa meta, para isso teríamos que acelerar para tentar passar o controle antes das dez da noite. Hotel às margens do Loire reservado.
“Foco! Bora lá!”
O Moab manda mensagem “Vocês vão ver o controle, é antes da cidade!”
O vento estava endiabrado mas nós não podíamos ceder. Foi uma luta constante.
Mais pra frente vemos um clube de canoagem com bandeiras e uma mulher de pé bem na margem.
Aos nos aproximarmos encalhamos e enquanto decíamos da prancha para empurar toca o meu telefone.
Foi um dos momentos hilários da prova; o Sr do hotel me dizia em francês que a recepção do hotel já estava fechada e que nós deveríamos já estar lá.
Imaginem eu, no desespero de chegar no ponto de controle, ao mesmo tempo tentar explicar que estávamos tentando chegar em Blois mas que estava muito vento. Agora imagine tudo isso em francês!
“Trop du vent!!!”
“Mas vc está de bicicleta?”
“Não, estamos competindo vamos chegar pelo rio!”
“???” Desliguei rindo.
Para completar a desgraça, quando chegamos empurrando a prancha no suposto ponto de controle percebemos que a pessoa não era o controle, era apoio da Marie, e estávamos no lugar errado.
“Não, o controle não é aqui!”
“Nããaaaaoooo!!!”
Volta pra prancha e rema forte, habemus de alcançar o destino.
Chegamos no controle onde estava Léa:
“Girls, you are amazing!”_ disse que todos estavam surpresos com nosso desempenho.
Ainda faltavam 15 minutos para as dez, quando percebemos que seria complicado parar ali porque ainda estávamos longe do hotel decidimos avançar.
“Vamos, passar duas pontes! E chegamos ao hotel.”
Já naquele momento da noite onde quase nada se via, ao passar uma vestígios antiga eclusa a Dri lembra.
“Direita, direita!!! É pela direita!”
Já estávamos ajoelhadas para não correr mais riscos. Ao passarmos, a porrada que a quilha deu nos arremessou para frente. A essa altura nossos joelhos já estavam completamente ralados.
“Caracaaaa! A quilha deve ter quebrado!”
Ao seguir de joelhos remando para a margem do hotel percebemos que quilha ainda tínhamos porque a prancha andava em linha reta, só não sabíamos ainda o estado que ela tinha ficado.
Foi encostar a prancha para eu sair correndo rumo ao hotel. Fala sério!
Tive que ligar pro dono abrir e quando ele veio recepcionar na porta da rua; uma descabelada, descalça de coletes salva-vidas que estava sentada na sarjeta praticamente morta, acho que ficou com tanta dó que nem quis fazer perguntas.
O primeiro banho depois de quatro dias!
“Nem acredito que vamos dormir numa cama!”
Assim na felicidade plena, das coisas simples que se podem ter na vida, fomos dormir tarde da noite.



3 Responses
Hahahahahhaa… lembrei de tudo. Foi fácil esse dia, imagina os outros. Te ano Mana!!!
Já com saudades de tudo! 💗🌸💗🌸💗🌸
Meu Deus ! Só esse episódio da um filme! Meu coração sentiu todas as emoções amo vcs minhas guerreiras!!!!
Demais !!!!
Meninas, esse quarto dia foi hilário!!!
Amei as “mensagens intrusas” e a descabelada da sarjeta kkkkkkk