Mais 107 k – Quinto dia da Loire 725

fotos Moab Felipe

“Tudo dando errado conforme o planejado.”

Esse era nosso mote, adotado mesmo antes mesmo de começar a competição.

A Dri acordou muito mal cheia de inchaço e dor na mão. A síndrome do carpo gritava a noite, o que afetava o sono e a sã consciência.

Acordou pensando em abandonar a competição. Eu fiquei preocupada porque pude perceber que a noite dela tinha sido bem agitada. 

A reunião de cúpula da equipe durou pouco. A Dri voltou a ser a Dri, e logo estávamos às margens do Loire com uma vista incrível de Blois em neblina, comendo a nossa tapioca que o Moab preparava com carinho pro café da manhã.

“Somos uns privilegiados!”

A neblina deixava o Loire mais místico ainda. Desde ontem que passamos por Orleans, estamos ja na famosa região do Vale do Loire, património da humanidade.

Nossa prancha passou a noite cheia em cima do carro. A quilha?

Parecia que tinha sido mordida por um tubarão! 

“Teremos que usar a quilha longa.”

Bem que poderia ter sido um dia depois. Hoje, o quinto dia, aparentemente seria o último dia que precisaríamos na quilha curta, mas, vamos à solução; vai de longa!

Entramos na água e fui tentando mudar a percepção da nova profundidade suportada pela quilha nova.

O lado que era ruim da remada para Dri era o mesmo para mim; ela com o Carpo e eu com dor de cotovelo.

Na prancha as nossas dores se compensavam ao contrário. Uma tinha dor de algo na esquerda, a dor refletia na outra na direita. 

Muito maluco pensar. Ao longo dos dias percebemos o quanto remar em tandem é um esforço conjunto porém de unidade. A falta de uma, é compensada pela outra involuntariamente, muitas vezes sem perceber conscientemente.

O acúmulo de horas começava a deixar claras essas novas descobertas.

Por outro lado remar em tandem é extremamente divertido. Jamais optaríamos em competir uma prova tão longa e tão dura em pranchas individuais. Precisávamos mesmo dividir a experiência, assim juntas transformando o perrengue em diversão, nem que isso significasse lesões espelhadas.

No começo da remada as dores eram sempre mais intensas, depois o corpo esquentava e fluíamos com o rio. 

“Eu to com muito sono.”

Os longos dias e as poucas horas de descanso afetavam cada vez mais nosso corpo.

A Dri tentou sentar enquanto eu remava. 

“Isso não vai dar certo.”

“Eu preciso mesmo dormir!”

Como numa corrida de aventura uma parada para “power naps” sono breve e estratégico;

“Então deita.”

Comecei a remar, estávamos numa parte tranquila e linda do rio, a velocidade cruzeiro diminuiu mas poderia continuar assim por muito tempo. Estava relaxante.

“Pronto! Nossa, até sonhei!”

“Já?!”

Nem sei quantos minutos foram, provavelmente nem remei 1k sozinha. Inacreditavelmente a Dri se recuperou.

Um dia cheio de passagens de pontes e corredeiras.

“Acelerem que a Marie e o Xavier estão vindo aí.” _ WhatsApp intruso do meu pai.

“Ah não! Eles não vão passar a gente não!”

Parada na margem para encontrar com o Moab e comer tapioca. “Rápido, não podemos ser ultrapassadas.” A verdade era que a gente não estava nem aí; a disputa era algo que só ajudava a gente a ser mais eficiente.

Seguimos em contato direto com o Moab recebendo as instruções das melhores opções e escolha dos arcos ao passar embaixo das pontes.

Eram fotos que ele tirava ao passar pra analisar o local, e informações do nosso racebook.

“Atenção, cuidado com pedras na saída da 3, talvez precise empurrar, continue pela margem esquerda.

Ponte 4 sem volume do lado direito da ilha.”

Chegando em Tours era um consecutivo de 5 pontes praticamente seguidas, umas sem grandes segredos de passagem e uma delas sinistra. A quarta.

“Será que ele contou a de ferro do trem como Ponte? Essa já é a quarta?”

Numa mistura de informações ao encarar a quarta ponte ainda remamos pra trás para, contra o relógio, tentar escolher a melhor opção. O tempo escoava na velocidade que a água nos puxava.

A escolha do arco que tivesse volume de água e não pedras acabou sendo, sob pressão, no chute.

“Vamos!”

A corredeira era forte. “Rema, rema, rema!”

Mesmo de joelhos, com a velocidade e instabilidade da prancha, fomos arremessadas.

Água gelada, remos soltos, garrafinhas boiando…

Plateia na margem admirando o show das náufragas.

Uma hora depois quando encontramos o Moab para uma portagem, ao mesmo tempo que ele fazia passinhos de dança cantava dizendo:

“Eu mandei vocês por uma corredeira onde era uma portagem. A Marie ficou lá trás! A Marie ficou lá trás!” _ e não parou de dançar.

“Moabbbb!!! Você quase matou a gente!”

Pelo quinto dia consecutivo remamos mais de três dígitos! 

Tentamos esquematizar mais um hotel para a noite, mas acabamos saindo da água pelas dez da noite, a solução foi montar acampamento onde o Moab esperava a gente.

“A Marie e o Xavier pararam muito pra trás.”

Santo Moab que tinha energia pra botar na equipe quando tudo que a gente gostaria de fazer era de desfalecer.

Debaixo de uma ponte daquelas lindas com arcos em pedra. O barulho da água ecoava que era uma “maravilha”.

“A noite vai ser boa!”

Com 544 k acumulados nos 5 dias de prova termina mais um dia.

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2 Responses

  1. Moab vc é um Santo! Dançar numa hora dessas? Só pertencendo ao céus, e ainda fazendo tapioca ? Nossa meninas vcs estão bem acompanhadas haja energia ! ❤️

  2. Hahahahaha… lembrei desse dia todos depois de ler. Ficou muito bom😂😂😂😂

    Moab quase mata a gente, mas a estratégia foi ótemaaaaaa

    🌸💗🌸💗

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