Nós sempre soubemos que iríamos morrer na praia. A Loire 725 foi a primeira prova que ao nosso ver, a conta não fechava. Por outro lado o impossível só existe até provarmos o contrário, e com isso vivíamos os nossos dias de cada vez.
Hoje o sexto dia era mais um dia de corte, algo que nós paramos de nos preocupar desde o segundo dia. Dormimos bem mais à frente do Xavier e dos dois caiaques que por sua vez dormiram mais à frente da Marie.
Aqui o Rio é todo balizado pelas boias e a tática era seguir o fluxo de água e as bóias. Nossa correnteza amiga “Mário” estava de volta e trazia consigo todos os seus sinais de leitura.
Pouco antes de chegarmos a Saumur aparece a Marie remando.
“Girls, you are really strong!”
“Você também Marie, é muito forte!”
“Estamos em Samour não?”
As margens encantadas e características do Vale do Loire nos brindam.
“Como é que ela já está aqui?”
Onde fomos ultrapassadas pelos outros 3?
“Moab! SOS!”
Voltamos a seguir fortemente o “Mário” os “azulejos” do fundo. Logo mais chegou o resto da trupe; Xavier e os dois caiaques.
Esse trecho foi um dos mais nítidos das diferenças em seguir a correnteza. Os quatro iam no azimute, nós independentemente do vento seguíamos a melhor leitura do rio; eles deveriam remar 1k enquanto a gente deveria remar 1,5 mas a aplicação de força era completamente diferente, eles iam reto e a gente dando voltas floreadas sempre chegávamos neles.
Vento! Vento! Vento!
Caraca hoje a coisa vai ser feia!
Perto da hora do almoço o vento tinha mais força.
Paramos para o “nudes”, uma comida quente caia perfeito. O vento trazia muito incômodo.
Ao voltamos para água após nossa parada de 15 minutos as condições de remada eram hostis; o vento agitava as águas, a prancha batia. “Será que o dia todo vai ser isso?”
A partir daí decidimos que éramos soldados e transformamos todo o cenário numa guerra:
“Estamos sendo bombardeadas!”
“Oh não o bombardeio irá intensificar-se” (quando víamos uma rajada de vento se aproximar).
“Soldado vamos nos proteger na margem esquerda.”
Óbvio que ao remar perto da margem ainda pegamos pedaços de arbustos;
“Precisamos camuflar nossa embarcação.”
No horizonte víamos kites! KITES! que divertiam-se nas condições climáticas propícias. Para eles.
“Soldado, vejo inimigos!”
Os outros exércitos já nem víamos mais; os caiaques, que tem vantagem nesse campo de guerra desapareceu.
A soldado Marie foi abatida.
“O que?”
“Não acredito!”
Ficamos bem tristes ao saber que nossa amiga já não seguiria mais na batalha conosco.
“Perdemos aliados!”
“Agora nós seremos as representantes únicas do nosso pelotão.”
“A base está enviando mensagem em código morse.”
“Passem pelo lado esquerdo da ponte.”
A nossa interpretação do código morse não poderia ter sido pior.
Ao olharmos para a ponte no horizonte víamos uma ilha a separava. Resolvemos então seguir as informações atualizadas e pegar o lado esquerdo do rio, mas…
Mal sabíamos que estamos entrando em território inimigo; Le Loulet, um rio errado.
Nesse momento nossa embarcação encalhava muito, tentávamos muitas estratégias diferentes na conquista de terreno, tiramos a quilha, colocamos a quilha avariada. Enquanto ríamos com os bombardeiros e tudo que seguia dando errado.
Entravam mensagens da base mas estávamos sob forte bombardeios não havia hipótese de olhar os avisos.
Até que as mensagens transformaram se em uma ligação.
“Vocês estão no rio errado! Voltem! Voltem!”
Foi o Moab que ligou, mas a verdadeira mensagem de alerta chegou da nossa base aliada de Portugal. Obrigada soldada Jac!
O soldado Seba que, também estava em batalha, mas bem mais à frente, fez o mesmo; “Moab as meninas estão no rio errado, elas não podem fazer isso!”
Foram três quilômetros e mais de uma hora perdida; não podíamos conquistar aquele território. Batalha perdida.
Quando chegamos à “base”, no local certo, nos abastecemos de mantimentos e seguimos.
O dia em termos de esforço físico estava nível máximo.
Depois o Moab chegou ao local do corte, um clube de canoagem que ficava uma perna e trecho de rio também fora de percurso, porém no Loire.
“O Xavier está aqui e está todo f..”
Na corrida de aventura a gente tem um ditado assim; “Se não está fácil para gente, imagina para os outros!”
Quando nos dirigíamos ao corte vimos de longe o Xavier passando já no sentido contrário.
Ao nos aproximarmos estávamos acabadas, mas regra é regra; “Prepara a festa! Isso tá muito fácil!”
Todos que estavam no clube náutico foram contagiados pela energia, foram abraços sorrisos, e sopa! Obrigada Moab a sopa era necessária.
A vem Léa;
“Meninas temos duas opções para vocês terminarem a prova;
Vocês entram no carro e remam a partir de …”
“Nãããão!!!”
Ela nem precisava continuar com a opção carro, não era uma.
“Ou vocês poderão terminar a prova no domingo até as 10 da manhã! Mas não podem de maneira alguma passar desse horário, após esse horário onde quer que estejam terão que sair do rio.”
Morrer na praia sempre foi uma opção, aliás achávamos que nem teríamos escolha. Agora, o horizonte estava claro:
“Vamos pro tudo ou nada, e se morrermos na praia morreremos com HONRA e DIGNIDADE.”
“Honra e Dignidade!” virou grito de guerra!
Para sair dali e continuar remando foi a batalha mais dura do dia; o vento soprava com toda sua fúria.
Saímos em pé e remamos assim até fazermos a curva;
“Pronto ninguém está mais vendo podemos desfalecer.”
Já passava das sete e nossa progressão estava péssima;
“Será batalha perdida gastar mais forças contra esse furacão.”
“Vamos encostar. Melhor procuramos um hotel e tentar repôr descanso e energia para batalha de amanhã.”
“Moab precisamos de resgate!”
Afortunadamente a saída da água que estávamos tinha acesso ao carro.
Colocamos a prancha na capota e fomos na vila mais próxima ver se achávamos uma pousada.
A que, aparentemente existia, estava tendo uma festa ou casamento e as pessoas ficaram meio horrorizadas ao ver duas mortas vivas de coletes salva-vidas vidas a procura de um lugar para dormir.
“Não não, não é aqui!” Como quem diz saiam, “por favor”.
Hahahaha, na hora, a gente nem conseguiu rir.
Achamos um hotel próximo a cidade de Angers que ficava 15 minutos dali. O segundo banho da prova! Que maravilha!
Aproveitamos para mudar nosso voo para segunda feita, porque domingo seria, agora, o último dia disponível para conquista.
A Dri liga pro marido:
“Márcio, hoje a gente só remou 77!”
“Só?!”
Aí nos demos conta do quanto nossos parâmetros estavam avariados.
Seis dias e 621 quilômetros.
“Só faltam 100?”
“Esses 100, são os famosos 100?”
Dorme e deixa pra amanhã!



2 Responses
Meu coração tá na boca….
Hahahahahahaha… muito bom.com Honra e Dignidade
Te amo mana💗🌸💗🌸