fotos Moab Felipe e Manu R’ligerien
O briefing da competição sempre alertou que, a medida que o rio fosse se aproximando do mar, as condições ficariam mais brutas; não só pelo vento; a maré passaria severamente a ditar suas próprias regras a partir do quilômetro 650.
Os cem finais eram um pesadelo, mas antes da prova, e mesmo até aqui, nós nunca chegamos a pensar nisso, nossa estratégia era ir um dia de cada vez e inacreditavelmente agora era hora.
“Stratégie, stratégie!”
“Não adianta pensar em quanto falta, vamos remar o máximo que conseguirmos hoje.” _como fizemos todos os dias.
Saímos do hotel cedo para entrarmos na água no mesmo ponto onde havíamos saído dela.
Na parte da manhã a maré estava vazante e o vento ainda não tinha entrado, aproveitamos para acelerar.
A paisagem do rio muda, que serve para gente se distrair. A força da correnteza é algo impressionante quando a gente passa perto das bóias vê se logo o volume de água.
Desde ontem andamos com leash, aqui ao contrário do resto da prova, é obrigatório. Vê se bem o porque.
O dia está frio chove, minhas costas congelam daquele jeito que parece que vai dar câimbra em tudo.
Nós já estávamos pedindo sopa desde as 8 da manhã.
“Moab, já não queremos mais aquele pãozinho de leite; não podemos nem olhar mais para cara dele.”
A sopa sobreviveu a semana, algo que nosso organismo absorve e alimenta. Outra coisa que sobreviveu honrosamente foram as “amêndoas” de chocolate. Eu tinha feito um estoque na Páscoa porque imaginei que fôssemos precisar de chocolate, e um que não derretesse. Foi das comidas que mais nos ajudou, um boost de energia aliado à prazer.
Numa das corredeiras que passamos a prancha quase virou a Dri foi pra água, e eu no desespero absoluto de saber que morreria se me molhasse caí só pela metade.
“Moab precisamos de roupa seca, urgentemente.”
Com 35 k paramos na margem em uma cidadezinha Saint Florent le Viel trocamos de roupa, colocamos manguitos e nos aquecemos um pouco. Um moço da organização estava ali para tirar umas fotos nossas.
“Hoje está ótimo e sem vento! Rumo à chegada.”
“Sem vento agora!”_retruquei.
Nós sabíamos bem das condições que estavam por vir, rapidamente nos despedimos e seguimos viagem. “Não podemos cair de novo!”
Mais vinte quilômetros para frente o Moab espera a gente com um picnic na praia. Carne e batatas; eu fiquei com as batatas. “Tem ovo ainda?” Ovo cozido também salvou a gente muitas vezes.
“Preciso de uma power nap.”
Enquanto a Dri tirava um cochilo eu aproveitei para mandar mensagem pro Rui.
“Pronto. Vamos!”
Após a parada para o almoço acabou o sossego, veio mais chuva, veio frio, e veio o vento.
Começam as mensagens desesperadas;
“Moab, vamos precisar de chá, e esteja perto, iremos precisar de você. Já estamos morrendo de frio.”
Ainda conseguimos remar cinco quilômetros com bom ritmo, depois disso o vento aliado a maré impossibilitaram qualquer que fossem os nossos planos.
“Manda sua localização.”
“Estou mais à frente na margem direita.”
Nesse momento a Dri e eu remávamos de joelhos e o mais encostadas à margem possível.
De todos os nossos dias nunca tínhamos tido quilômetros com progressão tão lenta.
Remávamos à margem esquerda e o Moab nos esperava na oposta, onde, para chegar, teríamos que desviar nosso caminho. Ainda tentamos por 20 minutos, mas vimos que atravessar o rio seria impossível.
As bóias de sinalização estavam praticamente deitadas.
Diante as condições tão desfavoráveis resolvemos encostar e reestudar os planos; “Stratégie! Stratégie!”
Abrimos o leitor da tábua de marés e verificamos que a maré estava prevista para mudar a partir das 17h.
“Moab, nós não conseguimos chegar até aí.”
As duas horas que tínhamos foram aproveitadas para gente dormir; amarramos a prancha, e numa nesga de areia deitamos. Fomos acordadas algum tempo depois com a água molhando nossos pés.
Deitamos mais pra cima, colocamos o despertador para as 5 da tarde.
Essa foi mais uma das estratégias, e sem dúvida das mais decisivas e acertivas que pudemos ter.
Às cinco e pouco da tarde chegamos no Moab, ele tinha deliciosas patisseries e chocolates quentes. Os doces foram altamente apreciados, já o chocolate quente tinha umas quatro horas de atraso, após a nossa parada a temperatura mudou e ficou quente de novo.
O plano do dia era o dos últimos seis, remar o máximo que conseguíssemos até as dez da noite.
A nossa progressão continuava lenta, e nós íamos controlando no relógio onde tínhamos o melhor pace; quando a correnteza começou a virar era mesmo no meio do rio, mesmo contra a desgraça do vento, que só piorava.
No meio de uma dessas lutas lá pelas sete da noite toca o telefone.
“Girls, amanhã vocês terão que entrar no carro. Vocês deverão ir até ….”
“Como assim? Nós não iremos entrar no carro. O combinado não é amanhã até as dez da manhã?”
“Sim, mas vocês nem chegaram à Nantes.”
“Estamos no meio da competição, estamos com vento na cara, iremos remar até as dez da noite e depois a gente conversa.”
“Se não conseguirem terão que chegar a linha de chegada em Paimboeuf de carro!”
Nós já estávamos pilhadas para remar fisicamente, com a ligação de Léa tivemos a mental. Provocou nossa ira:
“Honra e dignidade! Não entraremos no carro! O que eles querem? Filmar a chegada para o Instagram? Mesmo que a gente não tenha feito o percurso? Nem a pau! Vamos remar até onde nós conseguirmos até as dez da manhã e se tivermos que morrer na praia, assim seja!”
Aceleramos e nem pensamos mais em nada, seguíamos sentadas porque a força do vento contra era brutal. Fazer xixi também passou a ser em cima da prancha: “Luli, por favor, não! Não nããooo!!!”
“Joga água na remada que depois a gente resolve!”
“Moab reserva hotel em Nantes. Nós iremos remar até as dez da noite e quando sairmos da água vamos para onde quer que seja.”
Já nas proximidades de Nantes o Moab gritava desesperado da margem!
“Cidade Gigante! Não tem saída do rio na cidade! Eu vou estar na única opção que existe mais pra frente!
A única opção que existia, para nós ,não seria suficiente, agora a maré estava furiosa e no mesmo sentido que nós, o vento contra começava abrandar.
“Aqui, aqui! Saiam aqui!”
Gritamos de longe:
“Tchau Moab! Acha mais para frente!”
Já quase passando Nantes em sua zona industrial saímos da água, com o frescor e adrenalina que poderíamos facilmente ter remado mais, se não fossem as regras de horário.
Já fizemos o nosso plano; “Amanhã entraremos na água as 5:30 (quando a maré começaria a vazar) e remaremos até as dez. Paramos onde pararmos!”
Nem irei atender o telefone da organização! Combinado é combinado!
Quando chegamos ao hotel, tomávamos banho e esperávamos o Moab voltar com combos do Mac Donalds, entra uma mensagem no meu celular:
“Hello Girls; We hope your are OK ! For tomorrow the tide we be at the lowest at 11:00 am. You HAVE TO BE at 11:00 am at the arrival at Paimbœuf !!!! It’s an obligation to take the car if you see that you will not be in time.To succeed you are allowed to leave in the morning at 5:30 am. This are the last changes we are going to do so you can finish !! Have a good night, see you tomorrow at Paimbœuf!”
“Dri, Dri!!!! A gente pode efetivamente entrar na água as 5:30 da manhã!!!!”
O universo nunca esteve tão alinhado: Amanhã chegaremos à Paimboeuf!



3 Responses
Santa estrategi, essa foi a melhor e a ligação da nosso amiga nos encheu de energia que nem sei de onde tiramos😂😂😂😂😂🌸💗
Meeeooo Deusss!!! Sentindo aqui toda adrenalina!!!!! 🔥🔥🔥🔥
Creeeedo que aventura maluca! Meu coração bateu de novo a cada parágrafo Bravo!Bravo!
Vcs 3 são demais !!! Parabéns parabéns!!!