“Um péssimo dia de competição é melhor que um bom dia qualquer.”
O Xterra entrou na minha vida, de repente; sem planejamento nenhum, num ano multi esportivo.
Caí de “paraquedas” na primeira competição em Ilhabela que já me classificou para o mundial, no mesmo ano, no Havaí. Doze anos atrás.
A partir daí, o desafio de marca mundial, passou a ser uma boa desculpa para conhecer e descobrir novos lugares no mundo.
Em 2018 foi a vez de Portugal, meu novo e recém país de morada.
Não seria prova para repetir (eu nunca costumo) mas numa roda de conversa, surgiu a proposta de nos desafiarmos, novamente em Golegã, e a ideia de compartilhar o perrengue cercada de amigos me pareceu ótima.

Uma vez no calendário, compromisso certo. Os amigos ficaram pelo caminho, mas eu com treinos de bike e alguns (nunca suficientes) de natação resolvi manter a missão. Me federei junto ao Triclube de Penafiel, para me aliar aos bons exemplos que incentivam o esporte e a paixão dessa partilha. Siga!
Achei os meus tempos de prova e procurei meu relato no blog.
“Não escrevi relato?”
Ainda consegui dar uma estudada no histórico de tempo e nas minhas “rivais”. Sem volume de treino específico necessário para bater o meu próprio tempo, me alistei. O fator principal sempre foi e será a diversão! Bora para prova.

Na manhã de prova acordei femininamente perdendo sangue. Que “maravilha”!
Atualmente é um tiro no escuro saber como o corpo estará num dia específico de competição ou mesmo treino.
Números de planilhas e previsões de performance poderiam certamente ser os de uma mesa de Casino, uma roleta. Sorte, pura sorte.
Nada mais imprevisível que a vontade particular esquizofrénica e inconstante da natureza feminina. Isso é com o que 50% da população sempre teve que lidar. Os outros 50% tá aprendendo a respeitar e descobrindo agora que alterações hormonais bombásticas existem. Santas mulheres que resolveram abrir caminho.
“Vais competir assim?”
“Se assim não, de que jeito?”
A previsão era de calor. Muito calor. Neoprenes não seriam permitidos. A natação deveria ser feita sem a ajuda dos fatos, diferentemente da minha experiência em 2018. Lá vou eu pro fundo.

Natação 1.5 k
Em 2018 eu lembrava de ter que desviar dos jacintos e plantas de um pântano não muito atraente para nadar.
“Esse ano conseguimos controlar e cuidar para que estivesse limpo.” Alegou a organização na véspera.
Sentada na plataforma sobre a água escutava o competidor:
“À direita temos os cavalos e todo estrume que de lá vem, à esquerda temos os campos e os cultivos com agrotóxicos que aqui desaguam.”
Esse é o panorama da pocilga que nadamos. Talvez os extintos jacintos fossem amigos, não?
Eu tentando entender a sequência de bóias que teria que seguir, vem Susana, outra simpática atleta, se apresenta e me ajuda a desvendar o mistério. “Obrigada!”
A largada foi dada com todos os atletas na água, às DEZ da manhã. (Por favor, guardem essa informação.)
Lá fui eu contra naturezas (a minha e a da água) encarar a natação.
O cheiro forte, e o gosto ácido dos goles involuntários me traziam na mente os mares cristalinos de Xterras d’outrora Sardegna, Malta…Não só mar, incontáveis rios incríveis que Portugal teria para oferecer. Engole o choro, você sabe pro que veio.
Primeira volta num misto de estilos crawl, clássico, sai da água e corre até pular novamente na pocilga.

Escuto minha torcida:
“Vai amor.”
Termino a natação em 41 minutos, dos piores tempos, entre os últimos, mas não “A” última. Um feito. Saio corredo feliz, passo pelo jato de água que tem para lavar os atletas e sigo para transição.

“Agora é rodar pernas, e não vás ao choque. Hidrata!”
Mountain Bike 36 k

Entrei no btt seguindo as instruções do coach, gira pernas com vontade e velocidade. A primeira parte é bem plana e nada técnica.
Quando entramos na zona dos single tracks já começa um sobe e desce, rompe pernas como se diz por aqui. Subidas ardidas, downhills exigentes.

Eu lembrava do percurso da bike assim mesmo; alguns zigzags divertidos, muita pedra solta e terreno seco o que deixava alguns downhills bem perigosos.
No começo da bike ultrapassei algumas mulheres.
Com pouco mais de duas horas de prova comecei a sentir a baixa; o calor de 36 graus tomava conta do meu corpo e me castigava. Junto com a quebra, como um raio; o dejà vu:
“PQP! Por isso que eu não escrevi o relato em 2018!”
Ali, a minha revolta era de organizadora de prova; como é que em sã consciência, alguém, numa terra como Golegã que tem por característica esse calor tão agressivo, coloca a largada da prova às dez da manhã?!! Porque?!
Tinham momentos em subidas curtas que eu parava de empurrar a bike e me concentrava na respiração para tentar abrandar a tosta.
Ao chegar ao abastecimento fica claro o porque não quis partilhar os defeitos da prova; sua gente. O povo da terra que está ali no meio do monte com sorriso largo no rosto cuidando dos atletas.
“Podem me enfiar gelo nas costas?”
“É brasileira?”
“É claro que é brasileira, não ouviu o sotaque dela?”
“Vou falar uma coisa pra vocês, o Brasil é quente, mas não chega ao pé dessa terra aqui de vocês!”
Todos riram e eu segui viagem.
Nesse segundo ato de competição, me desliguei da competitividade e ativei a sobrevivência; sabia que para terminar a prova teria que gerir muito bem o esforço do meu corpo para não colapsar com o calor.
Ai vem flashes de Extremadura, o campeonato espanhol de 2015, na cabeça, um dos Xterras mais quentes que competi.
Pouco antes de chegar à parte plana novamente, encontro com o Rui.
“Tás bem?”
“Não!”

No abastecimento completo a água na garrafa e aproveito o gelo que felizmente ainda carregava.
Na parte final da bike cruzo com atletas andando no trecho da corrida e já elaboro a minha estratégia; saio da última transição com a garrafa de água cheia em mãos; a única maneira de correr dez quilómetros será ir o tempo inteiro jogando água na cabeça e corpo.
Corrida 10 k
O trecho da corrida eram dois loops de um formato oito. E logo já na primeira perna, seguindo a placa que desvia o percurso do movimento de carros da estrada, nos manda para um…um?…esgoto?
Um trecho inclinado de concreto com uma corda que termina numa travessia de charco preto, um esgoto, com lixo nas margens e cheiro forte. É isso mesmo?!
Esse mesmo trecho anunciado em uma foto distorcida no Facebook dias antes da prova, como um dos highlights da corrida?
Do outro lado o fotógrafo aguardava.
“Posso pular?”
“Pula mais pra esquerda. Não é fundo!”
Pulei no lodo e caí em cima de uma pedra. “Ai!”

Faço a travessia.
“Logo está na chegada e faltará só uma volta.”
Eu tava com pouca quilometragem na primeira perna do oito; “Logo?”
“Será que me mandaram pro lado errado?”

Nesse momento eu tive como certo na minha cabeça que se tivesse ido para o lado errado não teria condições físicas e muito menos psicológicas para terminar a prova.
Felizmente, ou não, estava na direção certa.
Antes da segunda perna do primeiro loop reabasteci de água e continuei correndo, em passos lentos, com o meu sistema de resfriamento do corpo; água na cabeça o tempo todo.

A segunda perna do loop não melhora a paisagem, corremos às margens da pocilga e ao lado de um acostamento sujo de estrada, antes de passarmos pelo centro da vila.
Imaginem o grau do meu descontentamento. Ali, resolvi que sim, escreveria o relato, não para lembrar, mas para não me esquecer da desgraça e não cair novamente na mesma emboscada.
Mais um banho de água gelada, garantido pelo simpático staff do abastecimento antes de encarar a minha última volta e pronto!
Com 5h20 de prova, uma hora e dez a mais que a minha primeira edição cruzei a linha de chegada.
Recebida pelo Rui que zelou por mim o tempo inteiro. Do avesso, mal agradeci e colapsei no gramado na primeira sombra que vi.

“Tu ficaste em terceiro no teu escalão.”
Comecei a chorar.
Obrigada por treinos e todo apoio, antes durante e depois, amor!

Amo perrengues, amo o fator superação, vencer adversidades, mas amo fazer com componentes que fazem sentido para mim.
Um Xterra que carrega o nome de um país deveria, na minha opinião, representa-lo. Portugal tem rios, mares, trilhos maravilhosos, paisagens das mais variadas e sítios dos mais incríveis para pedalar, nadar e correr. Golegã, é a capital do cavalo.
“Mas não teve nada bom?”
Oh, se teve!
As pessoas e o carinho delas através da torcida, do gelo no abastecimento, do apoio, dos incentivos. Organização e atletas.

Me comprometer com o Xterra esse ano, me trouxe a oportunidade de representar um clube de atletas de garra, e um projeto bonito de incentivo através do esporte. Obrigada TriClube Penafiel.
Teve festa, pódio e com isso convívio com atletas dos mais diferentes e divertidos, tudo gente como a gente.

Teve uma Neozelandesa 65+ no pódio! Ah, essas inspirações…!
Teve relato, aquele que faltou em 2018, com inflação corrigida.
Teve perrengue a mais, história e vivência para contar.
Agora já; quando é a próxima?


One Response
Haja perengue hein? Realmente o lugar da prova não ajudou nadica .. mas vc é guerreira !
Parabéns filhota querida e obrigada meu genro querido por zelar pela minha filhota te amo bjs mil nos dois