Parecia uma boa ideia ir conquistar a segunda etapa da Riaño, uma vez que meu corpo já tinha se recuperado.
Carreguei o track do percurso no meu relógio e no celular também. Confesso que não procurei saber muito sobre o terreno; por ser parte da competição julguei que os 20 k não deveriam ser algo tão complicado. Santa ingenuidade!
Mal sabia eu que teria que ESCALAR uma montanha e DESESCALAR a mesma. Sim, porque não era uma trilha. Mas vamos aos pormenores da aventura.

O dia anterior de descanso foi para explorar devidamente a represa de Riaño.

Que remada mais incrível!

As intensas atividades e a despreocupação me fizeram estacionar o carro em Valverde de la Sierra para sair caminhando quase às 10 da manhã, em mais um dia que a onda de calor atacaria.

Dali a vista do Espigüete, o protagonista do dia, era lindíssima.
Eu tinha o track, a ideia era conquistar a subida da montanha. Se faria o restante do percurso? Logo se veria.
Ainda na aldeia uma senhora me abordou com olhar incrédulo.
“Vás a subir? Valente!”

O começo do percurso é numa PR em estrada aberta com vistas lindas do pico. A subida aqui, ainda é suave.

Sigo com meus trekking poles num ritmo tranquilo.
A medida que me aproximo a montanha começa a mostrar mais sua imponência.

Já mais ao alto, para trás fica Valverde embrenhado no meio da paisagem e suas cadeias de montanha.

O paredão de pedra, me lembra as montanhas de muitas vias ferratas que fiz com meu irmão, e suas trilhas complicadas de acesso.

A entrada da trilha ainda tinha a fita de marcação da competição. Começo a subir, agora a inclinação aumenta e eu vou sempre de cara para a montanha.

A trilha é dura, cheia de pedras soltas. A medida que vou subindo o enrosco vai aumentando.
“Será que é por aqui?” Em muitos lugares paro para conferir o track no relógio. A trilha não existe; só um acumulado de pedras e escolhas que tornam a acensão mais viável, ou não. Os totens de pedra, muitas vezes, são o que me salva.

É uma escalada, das boas. Não adianta usar o trekking pole porque ele te deixa muito afastado do centro de equilíbrio; melhor é ir com as mãos no chão escalando.
Percebo que a opção de ir e vir pela mesma trilha, algo que eu estava cogitando, caiu por terra; seria muito difícil e perigoso descer por aqui. (Depois descobri que a outra opção também não seria melhor.)

Olho la para baixo e vejo outros montanhistas. Amo estar sozinha, mas talvez ter uma companhia à distância, aqui na montanha seja boa coisa. (Olha a proporção monumental da montanha e tenta acha los na foto abaixo!)

A progressão é lenta. Os metros finais são complicados e onde encontro o caminho a trilha diverge do track da prova. Aqui onde estou, o melhor é ir para cima e la no topo, onde vejo mais pessoas, tentarei achar o track.

Quando chego la em cima resolvo ir conferir o topo do pico que é a direita. O track era para esquerda. Mas já que estamos aqui em cima vamos conquistar o Espigüete como se deve.

É impressionante a vista de cima dos 2.450 m ; as montanhas de Riaño ficam pequeninas e se perdem no horizonte com tantas cadeias.
Aproveito para tomar a coca cola e comer uns pistaches, que trouxe.
Hora de achar a trilha que desce. Aí entra a parte do DESescalar. Primeiro eu comecei a descer uma trilha que descia relativamente bem, mas não era a do track.
“Será que arrisco?” Fiquei com medo e achei melhor voltar e pegar o track da prova, mesmo sabendo que ele me levaria pro lado oposto da montanha. O dia iria ser longo.

O percurso da prova desce pela cumeeira do Espigüete, no terreno mais irregular e agreste que se pode imaginar. No último dia de prova eu fiquei impressionada com o pequeno trecho que passava em cima do Gilbo, mal sabia eu que no segundo dia a prova era quase um terço da quilometragem em terreno assim.
As coisas foram começando a fazer sentido, por isso os vassouras haviam me avisado: Você vai adorar o terceiro dia, ele é bem menos técnico do que o segundo.”

A verdade é que desde a Transalpine em 2012 eu nunca mais tive contato com corrida de trail tão desafiadora e perigosa, que tinha ignorado o fato de sua existência.
“Como é que alguém compete nesse terreno?”
Minha atenção era mais que dobrada; estava sozinha, num lugar remoto e sem cobertura.
Na descida o calor estava no auge. Descida essa que a progressão era igual e tão lenta quanto a subida.

Gerindo o calor, eu ia comendo e bebendo e já estava ficando sem líquidos.
Lá embaixo, como formiguinhas vi as pessoas que imaginei que fossem as que vi no topo quando eu subia. Vi o estacionamento de carro também e já comecei a traçar planos de como iria me reabastecer de água, ou eventualmente pedir uma carona de volta?
Depois da longa descida sai do track e segui para ponte e rio que avistei la de cima.

Deitei na água por alguns minutos e aproveitei para encher minhas garrafas de água, antes de voltar para o percurso.

Achei o painel da entrada da trilha que me levaria de volta a Valverde de la Sierra, com direito a uma cachoeira no meio do percurso. Nele era bem visível a cumeeira toda recém percorrida.
Já estava morta e precisava encarar a segunda subida. Felizmente o terreno não era técnico, saquei os trekking poles e segui me arrastando.

Meu relógio ficou sem bateria. “Pronto! Mais essa agora.” Ainda bem que eu tinha o mapa no celular e felizmente o gps funciona sem rede.

A cachoeira era incrível. O percurso passava do ladinho dela. Aproveitei para entrar embaixo daquele chuveiro natural de água e me refrescar novamente.
Mais para frente outra bonita queda d’água.
Quando começou a subir mais a vegetação era bem fechada, e os arbustos às vezes me seguravam para trás. Exigia um esforço extra de uma força que eu já tinha perdido lá no alto da montanha. “E não adianta chorar.”
Estar sozinha te torna forte. Não tem pra quem reclamar ou pedir socorro.

Olhava para trás e via tudo que tinha ficado. Ainda faltava mas convinhamos agora é menos, não?!
No alto da passagem perco a trilha, gasto um bom tempo com o celular na mão vasculhando o percurso e nada.

Até acho uma fita de marcação perdida, ando em torno dela, para lá, para cá e também, nada.

Os arbustos grandes tomam conta de toda a descida. Depois de muito quebrar a cabeça resolvo que a melhor opção é traçar o azimute mesmo e seguir no vara mato.
“Vejamos, ainda temos uma margem de umas 3 horas e pouco de luz do sol.”

Lá no vale era possível ver uma antena perto de um pasto. “O caminho deve ser ali.”
Segui arranhando as pernas, tropeçando e me enganchando na vegetação. “Arghh!” Não podia ser um pouquinho mais fácil?
Com menos forças finalmente chego à antena e acho a trilha marcada.

Trilha essa que se abre em estrada com destino a minha aldeia de origem.
Cinco quilómetros e chego lá. Ainda passei, dessa vez ao longe, por mais uma linda cachoeira.

A comida que levei foi toda, mas devidamente bem planejada para todas as horas que a trilha levou; foram quase onze! A água deu certinho também, porque quando poderia faltar, apareceu um rio.
Eu tinha um cobertor de emergência e um casaco; itens obrigatórios num trekking de alta montanha, mesmo que a previsão seja de 35 graus. Misericórdia!
De certa forma ainda bem que tive o vírus que me impossibilitou de fazer a prova em dias consecutivos. Definitivamente não tinha bagagem de treino para sobreviver bem às três marretadas consecutivas. Da maneira que foi, pude aproveitar o melhor da montanha estando mais preparada para ela. Agradeci.

Nos dois quilómetros finais, sou escoltada por um rebanho e seus cuidadores de quatro patas. Que eram super amorosos.

Tão cansada que estava a emoção à flor da pele, me emocionei andando lentamente aproveitando a luz linda final de tarde, ouvindo o tilintar dos sinos e brincando com os cachorros.
“Está vindo da montanha?”
“Sim, do Espigüete, foram onze horas.”
“Deve estar arrebentada.”
Arrebentada.
Arrebentada era a palavra. Cheguei no carro tirei o ténis e deitei na grama por uns minutos para me recompor.
Depois esquentei uma sopa e enquanto tomava, Sr Alejandro, um morador de 81 anos vem puxar papo comigo. Abre seu celular e mostra sua versão chef de gastronomia de anos atrás, conta me mais um pouco da sua vida, e pergunta se venho sozinha da montanha, quando digo que sim ele me responde:
“Eu também já andei muito sozinho por essa montanha.”
Quando olho para o pico Espigüete, a espera de cumplicidade, vejo um arco íris.
Que dia mais incrível!


3 Responses
😭😭😭🥰🥰🥰
Aprendo tanto contigo♡
WOW vc é porretamente corajosa!!! Parabéns pela persistência e garra te admiro demais !!!
Bjocas
WOW vc é porretamente corajosa!!! Parabéns pela persistência e garra te admiro demais !!!
Bjocas