Os 233 da Nacional 222

“O plano é N222. Os detalhes do plano não existem, é pegar a bike e ir.”

Rui e eu saímos de casa pouco antes das 6 da manhã, atrasados para o encontro com o Zé, vulgo Vaca Louca (sim, nossos amigos são todos normais!). 

Na rotatória algures em Gaia, começou a nossa jornada. “Onde está o k1?” Na falta do 1 ficamos com o 2.

Na minha bike eu levava o farol que usei no Ecomotion pró 2007, ainda sujo de barro do Rio de Janeiro. Nem acreditei quando conseguimos, com pilhas novas, acender.

Siga para a primeira aventura de bike de estrada! Eu nunca fui muito fã da bike, por muitas razões além de pedalar no meio de carros, a bike me remete à treinos chatos de rodagem.

Mas 222 km?! Isso me parece algo bem aventureiro! O Rui sabe das minhas condições físicas, já o Zé pouco se importa com qualquer condição, tá sempre tudo bem; ritmo, plano, falta de plano, tempo e literalmente não há mau tempo.A Nacional 222 é uma estrada que corta Portugal na horizontal; sai de Vila Nova de Gaia perto da costa e termina em Almendra já pertinho da fronteira com a Espanha. É considerada uma das estradas mais belas do mundo principalmente porque quem a acompanha é “ninguém” menos do que o rio Douro.O começo da estrada é o único trecho movimentado mas com poucos quilômetros de pedal já estamos em paisagens lindíssimas e poucos carros a passar. Com 20 rodadas o sol nascia. Já vê se o Douro num percurso familiar de quando vamos ao rio Arda remar.  Contra a luz vejo o controlo preto dos meninos e das montanhas no horizonte longínquo. As curvas e subidas. Ah, as subidas! Não são poucas no percurso. Só de pensar já lembro da fatídica de S. João da Pesqueira, mas melhor não sofrer por antecipação né? Ainda estamos no quilômetro 40 vamos parar para tomar café.

Pouco depois do café já estava precisando parar para comprar azeitonas. O dia começava esquentar e os primeiros sinais da “sofrência” estavam chegando.Com 90 passamos por um restaurante, pouco hesitamos e paramos; melhor garantir! Batatas fritas caseiras e uma omelete. Coca Cola não pode faltar.Depois do almoço vem a hora do calor e meu corpo responde mal, sempre. Junto com o calor provavelmente o trecho mais bonito da estrada. Lá nos 122 eu já estava “naquele” estado, mas vamos lá já só faltam 100 k.“What?!” Melhor garantir mais uma Coca Cola. Enquanto eu vou jogar água na cabeça os meninos garantem muito gelo na bebida, no maior astral de sempre.O pior está por vir.

Quando a gente passa a Régua as placas de S. João da Pesqueira já são visíveis. Os cálculos começam “Quanto será que tem de subida?” A resposta não demora muito; 15 marcados no chão. “Sério!?” 

No estilo contagem decrescente à la Brasil Ride os quilômetros foram lindamente ilustrados no asfalto por algum maníaco. 

“Argh!”

O sol está se pondo já estamos quase no 170 k, 150 foram de sol.  No meio da subida uma parada; mais uma cola e tremoços com o sal necessário que meu corpo pedia.Os últimos quilômetros de subida eram entre eu e minha cabeça. Os meninos iam na frente, eu já nem falava mais, só usava a buzina da bike para responder, o Rui voltava às vezes para ver se eu estava viva.

“Não!”

Eu já tinha pedalado com a Teresa e o André a partir da Régua e ainda tinha memória em cores das últimas subidas da estrada. Uma delas acabava de ficar para trás paramos até no mesmo bar, ali foi água. 

“Não precisamos ir direto, podemos parar para dormir se você quiser.”

“Preciso de água.”

“Seu corpo já não está mais absorvendo, você precisa é comer.”

“Jantamos em São João da Pesqueira?”

Pizza para os meninos, sopa e bolo de chocolate para menina. “Noiteeee!”A queda de temperatura e a sopa me resgataram do estado morta-viva. Parar ao meio nunca foi opção,  tá programado tá ali. A cabeça já sabe que vai, e com jeitinho ela convence o corpo.

Saímos de São João da Pesqueira noite a dentro. Faróis das bikes ligados, até descobrirmos que podíamos ir no escuro.

Ali todo esforço, quilômetros e aventura se fez valer: o silêncio era cortado apenas pelo som intenso dos grilos. A via láctea e estrelas estavam nítidas e brilhantes e até beijavam o horizonte.

Paramos algumas vezes, desligávamos todas as luzes e boquiabertos admirávamos o espetáculo. Imersos na escuridão e na natureza.
A última subida, aquela que eu estava com medo, nem vi. Sem luzes sob aquele céu mágico o esforço pouco se notou. O frescor da noite ajudava o corpo.

“Cadê esses 200 que não chegam nunca?”

Chegaram! E com mais algumas pedaladas fizeram se os 222 k da nacional 222. Foram 14 horas pedaladas, 19 de viagem 233 k com 4 mil de ascensão, Portugal de lado a lado está conquistado.Provavelmente o dia que eu mais pedalei direto na vida. 

A aventura termina ali mesmo quase às 2 da manhã, poucos metros do marco sobre uma lona debaixo de cobertores à céu aberto. Under the stars!Obrigada Báqui pelo astral e energia inesgotáveis, pela melhor das amizades, por dividir essa paixão por bike e aventura. Que venham muitas outras!

Obrigada amor, por alinhar fazer 222 talvez no dobro do tempo que vc faria hahaha! Que a gente siga somando e conquistando estrelas!

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