“Bear in mind, we are lucky to be alive and healthy with opportunity to be here today.”
Emoção. Claro que com uma declaração dessas já fiquei com os olhos cheios de lágrima. Meu pensamento intrínseco nas palavras do Speaker em alto e bom tom.
Olho para o dia, e o privilégio dobrado de estar nesse lugar maravilhoso num dia ensolarado. Agradeço.
Antes da largada, um breve briefing.
Foram removidos alguns itens obrigatórios essenciais como luvas e calça impermeável, acrescentados outros protetor solar, chapéu e água.
“This is not what the weather look like around here.” Refrisou o calor que viria pela frente.
“Olhe alguém que esteja ao seu lado nos olhos e depois de lhe um abraço de boa prova.”
Ninguém quis me encarar, e eu no auge da minha brasilidade
co-abracei duas chinesas que estavam se abraçando. Meu abraço foi um choque cultural. Hahahaha.
As duas olharam para mim meio espantadas, eu mostrei a bandeirinha do Brasil. Pronto!
“Ah! Brasil!”
“Have a great race!”

Sob o pórtico duas locais me ajudaram a desvendar um pouco do percurso.
“Não se anime quando descer, a subida final, parece que não mas, é uma grande marretada.”
Minha escola “Riaño” de quinze dias atrás deveria ter algo para me oferecer; como resistência ao calor e longas subidas. Mas se nem a brasilidade me trouxe essa resistência não seria a prova da Espanha que me traria, pois não?

Agradeci as dicas, tiramos uma selfie e largamos.
Abandonei o plano tosco, e larguei já num ritmo mais brando, disposta a gerenciar o ritmo, água e comida para sobreviver.
Logo depois que cruzamos o centro da vila, a prova já começa subindo corro e quando meu coração começa a querer subir demais vou na caminhada rápida.

Em pouco tempo já começamos a admirar a montanha.

Iremos até quase o cume dos picos mais altos daqui.

A bandeirinha do Brasil sempre traz amigos, uns que passam e perguntam “Tudo bom?” Com sotaque de quem não sabe sambar, e outro puxa papo:
“Já fizeste muitas coisas dessas?”

Toni, um português que vive em Londres que resolveu se aventurar também por aqui. Ainda corremos juntos por um bom tempo compartilhando experiências.

Quando passo um riacho lembro bem do briefing; “Não usem água do abastecimento para esfriar o corpo. Aproveitem as fontes naturais.”
Exito por um segundo, mas depois chego a conclusão que é melhor “perder” um tempinho agora para ganhar depois. Deito completamente na água. Alívio imediato.

Retomo a subida, que ao se aproximar do topo vai dando vistas mais lindas, enquanto o terreno começa a ficar mais técnico.

Abro uma das coca-cola que trouxe, sabendo que o isotonico dos pontos de água não resolveriam o meu problema.

Wyddfa é o nome dela, 1.085 m, famosa e acessível por um trenzinho local. Não chegamos a ir conferir o topo, viramos para baixo à 300m dele.

E aí começa a descida: uma calçada de pedras enormes e super irregulares, mas não só; vamos no sentido contrário dos que sobem.

A trilha é a trilha de acesso de todos os turistas e, além deles, corredores de outra distância que sobem no nosso contra fluxo. Rush.
Apesar dos simpáticos incentivos e torcida, eu me senti egoísta nesse momento. Não estava curtindo compartilhar a “minha” trilha com uma multidão. Tá certo! Hoje é sábado e contra as leis naturais de Gales está sol. Óbvio que todos querem um pedaço do Mount Snowdon.
O universo me castigou na hora. Levei um capote e caí chapada.
“Are you all right?”
Levantei e analisei o estrago; tudo no lugar, só o joelho que sofreu a maior pancada.
Continuo a descer.

“Para descer todo Santo ajuda!” Quem foi o #fiadaput4 com colágeno extra que inventou o ditado?
Quando começo a ouvir o Speaker já me preparo mentalmente para passar quase que ao lado da chegada e começar a subir. Aquela subida que fui preparada.

Antes de começar a subir tomo a minha segunda Cola. Degraus e uma subida bem ardida.

Totalmente válida pela vista! Que coisa mais linda!

Entre muros de pedra e a floresta às vezes nos deparamos com a vista maravilhosa sobre a água.

Apesar do calor intenso das 3 horas minha subida ainda conseguiu ser melhor que a maioria dos atletas que estava ao meu redor.

Já na descida e reta final, nem tanto, a mecânica do meu corpo ultimamente não anda lá essas coisas.
Com 3h26 de prova cruzo o pórtico de chegada muito feliz com a aventura incrível. 6/14 na categoria. Deito numa sombra na grama e demoro para me recompor do calor.

“Mas você é brasileira!”
“Arghhhhh!!!”
Nenhum empeno que um mergulho gelado no lago e uma pizza não resolvam. Aproveito para curtir a base da prova e os atletas chegando.

Ali o Speaker anuncia que a prova teve que ser interrompida na montanha para muitos atletas, principalmente os que estavam na maratona e ultra. O calor excessivo tornou a prova não segura.

Quanta sorte! Em poder desfrutar desse paraíso num dia ensolarado e ainda conseguir percorrer todo o percurso.
Me faltou energia para comparecer no jantar final, pedi SOS para meu amigo Miguel que me levou para o novo hotel, em Bangor, meu novo destino do dia.



Obrigada amor por planilhar meus novos treinos, adaptar e incentivar essas aventuras de última hora.
Eu nunca levei muito a sério o mundial de trail run do Xterra, talvez por não ser a prova principal da marca.
“Vou pra o mundial de fundo de quintal.”
O meu pre conceito se desfez depois que presenciei a festa desse final de semana. Pode ser um nicho pequeno, mas são corredores do mundo inteiro; China, Japão, Nova Zelândia, todas as partes da Europa, Porto Rico, México, Brasil…

A ideia de juntar atletas e entusiastas do trail run para partilha de vivência na natureza em lugares singulares e magníficos do mundo é mesmo bonita.
“We play. We protect.”

Obrigada Xterra pela premiação na Ilhabela, sem você eu não teria seguido essa trilha que me trouxe até esse lindo Parque Nacional chamado Eryri. Volto daqui feliz!
Venham mais aventuras X!



One Response
Ah… festa, paisagem, sol, pizza e amizade ♡ ( tudo perfeito ♡ )
Obrigada por partilhares o que os teus olhos vêem e o coração sente♡